21 de ago de 2017

O Conto da Aia – Margaret Atwood


Quando sucessivas reportagens celebram o sucesso de The Handmaids Tale, uma atriz do calibre de Emma Watson (a bruxa mais inteligente de sua idade) espalha o livro pelas ruas de cidades por onde passa e a sua editora parceira (maravilhosa) anuncia que republicará o livro, não há muito o que questionar: tudo que você sabe é que precisa ler O Conto de Aia.

Acho que não fui a única a pensar assim: só consigo imaginar que o atraso de quase um mês entre o pedido e a chegada do livro foi resultado de um pedido em massa por parte dos parceiros.

Publicado pela primeira vez em 1985, o Conto de Aia, da canadense Margaret Atwood, ressurgiu no cenário mundial em um momento em que as liberdades individuais (em especial, a liberdade feminina) se choca, cada vez mais aberta e violentamente, contra um Governo que coage e pune com violência, e que ainda usa dos discursos religiosos ou de ódio para se legitimar.

Em algum ponto do século XXI, o mundo foi devastado pela radiação e pelos efeitos de sucessivas guerras biológicas e químicas antigas e/ou em andamento. A maioria das mulheres no que antes foi conhecido como os Estados Unidos da América se tornaram estéreis, e por isso há mulheres como Offred.

Uma propriedade do Estado, cuidada e mantida saldável com o único propósito de procriar. Claro, ela pode sair de casa (para fazer compras uma vez por dia, sempre acompanhada de outra Aia), e também é livre para rezar (trancada no quarto em que ocupa na casa do Comandante que ganhou o direito de tentar engravidá-la). 

Caso não cumpra com o que é esperado de Aia (dar filhos às Esposas), Offred se tornará uma Não mulher e, junto a outras inférteis, viúvas, adulteras, feministas e homossexuais, será condenada a trabalhos forçados nos lugares em que a radiação reduz sua expectativa de vida a 3 ou 4 anos (ou mesmo menos). Ou então ela pode ser fuzilada ou enforcada e ter seu corpo exibido no Muro, para servir de exemplo à outras Aias.

Mas, contrariando o Estado que a controla, Offred também se recorda de sua vida anterior. Recorda-se de sua filha pequena e de seu marido, perdidos a tempo o bastante para se perder a contagem do tempo.

Sua transgressão continua em sua narrativa, e a própria narrativa se torna seu instrumento de transgressão e de libertação. Para nós, seus interlocutores que nem ela mesmo acredita, ou espera que terá, Offred se permite confiar o bastante para contar um pouco sobre o tempo em que passou com o Comandante e sua Esposa, sobre sua sociedade e sobre àquelas mulheres que foram reduzidas a úteros implorando para serem preenchidos.

A narrativa construída por Margarert é surpreendente (não encontrei outra palavra melhor aplicável). É incomoda e amarga e não só pelo ambiente em que tudo se passa, mas pelo desconforto em saber que todo aquele absurdo teocrático que é a República de Gilead é perfeitamente possível de sair dos papeis de Atwood (embora fique me perguntando se formar um mundo de caos a partir das doenças de nosso tempo não seja uma prerrogativa da distopia... Assunto para outra ocasião talvez)

17 de ago de 2017

Um Tom Mais Escuro de Magia – V. E. Schwab


Há muito tempo a magia transitava livremente entre os mundos. Mas ela saiu de controle e passou a devorar a tudo e a todos.

Por precaução as portas entre os mundos foram fechadas, e o passar dos séculos fez com que as diferenças entre eles se atenuassem – até restar pouca semelhança entre elas: o “mundo cinza” é sujo, enfadonho e sem magia; o “mundo branco” é pálido, desbotado e a magia é arisca e selvagem, sendo controlada a força pelos poucos com poder o bastante para fazê-la emergir do subsolo profundo. No “mundo vermelho”, o respeito e a reverencia pela vida e pela magia faz dela uma força constante e (quase sempre) pacífica. O “mundo negro” é onde, segundo as histórias contadas para as crianças, o caos e a destruição imperam.

Em comum, esses quatro mundos possuem uma cidade: Londres (o livro descreve essa intercessão como planos diferentes de um mesmo ponto, um encima do outro, e não entrepostos).

Oficialmente, Kell é o mensageiro da família real da Londres Vermelha. Mas por baixo dos panos, e sem ter a real necessidade ou motivo, ele é um contrabandista que atende pessoas dispostas a pagar por vislumbres mínimos de algo que nunca terão de verdade.

Não é um hobby muito recomendável, e ele sabe que transportar um item, por menor que seja ele, de uma Londres a outra pode desencadear consequências catastróficas.

Consequências que o encontraram antes mesmo que Kell tomasse consciência do que havia feito.

Ao longo da narrativa, existe um ponto da história que a transforma de enfadonha para interessante (ou mesmo intrigante). Embora não consiga dizer exatamente em que parte isso aconteceu, a diferença foi o bastante para que eu conseguisse ler quase duzentas e cinquenta páginas em poucas horas (o que é bastante coisa se considerarmos que comecei e terminei este livro em dia de semana).

Acabou que fiquei animada e ansiosa pela continuação, Um Encontro de Sombras (que será lançado na Bienal deste ano).

3 de ago de 2017

A Casa das Sete Mulheres - Leticia Wierzchowski


Lá pras bandas de 2003 a Rede Globo produziu uma minissérie que ficou marcada na minha memória pela quantidade de atores bonitos reunidos em uma mesma produção (recorde esse que não foi superado até hoje).

Anos depois descobri que A Casa das Sete Mulheres foi uma adaptação de um livro escrito pela escritora gaúcha Leticia Wierzchowski e, mais recentemente, descobri que a história não apenas era um livro como fazia parte de uma trilogia.

Em comemoração ao lançamento de "Travessia", livro que conclui a série iniciada em 2002, a Bertrand Brasil relançou os dois primeiros livros em um novo projeto gráfico.

Quem se lembra da série com certeza se lembra do enredo (difícil esquecer uma boa produção, e A Casa das Sete Mulheres foi excelente), mas, para quem não se lembra (ou não é dessa época),a história se passa durante a Revolução Farroupilha, revolução de caráter republicano ocorrida no sul do país entre os anos de 1835 e 1845. De um lado, estancieiros sulistas descontentes com o preço dos altos impostos cobrados pelo Império Brasileiro e também pelo baixo preço do charque e do couro, principais produtos da região.

Quando a guerra se fez iminente, o general Bento Gonçalves da Silva isolou as mulheres de sua família mais as crianças pequenas em uma estância afastadas das áreas de conflito com o propósito de protege-las. 

Era para ser por um curto período de tempo, mas a guerra começou a se arrastar. Um ano virou três. Três anos tornaram-se cinco, e de cinco, para dez. E nesse meio tempo, as sete mulheres confinadas naquela estância aprenderam a conviver com a solidão e o silêncio da guerra e a esperar... Sempre a esperar.

A narração é feita em duas frentes: uma que acompanha episódios pontuais de todos os personagens envolvidos na estancia e na guerra. Seus pensamentos, medos e desdobramentos são ditos em terceira pessoa, como uma câmera acompanhando a pessoa. A outra frente são os "Cadernos de Manuela" (que na série foi interpretada por Camila Morgado) e, como o próprio nome sugere, são partes de seu diário, escritos durante o confinamento no campo ou mesmo muitas décadas depois dele.

Este não foi um livro fácil de se ler, e também muito difícil de se largar. O conhecimento prévio da história (pelo que aprendemos na escola ou mesmo pelas reminiscencias da série) já adiantava que não era uma história com final feliz (e histórias de amores partidos me cortam o coração até reduzi-lo a cacos). 

Ao mesmo tempo, a narração de Leticia Wierzchowski é precisa e não te deixa largar o livro. Mesmo sabendo que esta é uma história de espera, me senti compelida a esperar e sofrer junto com aquelas mulheres, a sentir suas raras alegrias e a suportar o fardo das tristezas. No fim, além de tudo, é preciso também dividir o gosto amargo da derrota, e reunir os cacos para viver sem aqueles que pereceram ao longo da guerra.

Terminei este livro temendo pelo próximo, o Um Farol no Pampa deve chagar a minha casa por estes dias. Sei que vou lê-lo da mesma maneira que li A Casa das Sete Mulheres: agoniada pela espera e pela guerra em curso, e também envolvida em uma narração impecável e amarga.

31 de jul de 2017

Slade - Laurann Dohner


Não estive muito bem esse semana, Minha cabeça me pregou uma peça e tudo foi aumentado à décima potência por causa do meu ciclo. Abandonei um livro promissor antes mesmo da página sessenta por estar no meio de um descontrole emocional.

Meu remédio auto prescrito para esses casos é um erótico (gênero que, por algum motivo que desconheço, tem aparecido pouco pela minha lista de leitura). No caso, o que estava à mão no momento era Slade, o segundo volume da séria Novas Espécias, da Laurann Dohner.

A doutora Trisha Norbit é o que se pode chamar de "menina prodígio": entrou na faculdade de medicina aos quatorze anos e aos vinte e oito já era uma respeitada e competente plantonista do Hospital Mercy.

Em um dos seus turnos, ela ficou responsável por cuidar de um paciente resgatado dos laboratórios das Indústrias Mercile. Não há informações sobre ele, a não ser que ele é um hibrido entre homem e animal (raça canino para ser mais exata) e que é chamado de 215.

Durante uma rápida visita ao quarto do paciente antes de finalmente ir pra casa, 215 acorda repentinamente e Trisha se vê como alvo dos jogos de sedução de um poderoso homem de quase um metro e oitenta e olhos azuis de predador. Apesar do perigo iminente, Trisha e 215 acabam presos pelo desejo mútuo, mas o alarme soa e uma equipe de segurança entra no quarto hospitalar para resgatá-la.

Pouco tempo depois, agora trabalhando em Homeland (o lar dos que são conhecidos como Novas Espécies), Trisha reconhece 215, só que Slade não a reconhece. Para piorar, os dois vivem trocando farpas verbais e se insultando mutuamente em um quase talento de tirar um ao outro do estado normal de temperamento.

A relação dos dois fica mais intensa ainda quando, durante uma viagem até o futuro novo lar dos Novas Espécies, o carro de Trisha e Slade é atacado por integrantes de um grupo de ódio contra os Novas Espécies e os dois se envolvem em um grave acidente de carro e acabam se tornando caça.

Enquanto lutam para escapar dos perseguidores, o desejo que os envolveu no hospital ressurge e, enfim, os vencem. E as consequências desse envolvimento mudarão a vida das Novas Espécies para sempre.

Devorei Slade em pouco mais que vinte e quatro horas (infelizmente, tive que parar para dormir e trabalhar). O livro cumpriu seu objetivo e meu humor voltou ao normal lá pelas páginas 230. A história realmente me envolveu e me fez esquecer (ou para de pensar) o que me fez ficar para baixo. Nisso ela tem todo o mérito, mas em outros quesitos, tive algumas ressalvas.

Slade é legal e tal (um tanto babaca, é verdade), mas não conseguiu me conquistar. Achei incrível como todos os outros Novas Espécies machos me envolveram (e se sobressaíram na história) mais do que o protagonista (que deveria ser o macho alfa da história e roubar as atenções da coisa toda). Fiquei meio decepcionada com isso e me peguei pensando no quão loucamente quero ler Valiant (o hibrido entre humano e leão que roubou a cena enquanto Slade fazia o papel de babaca-alfa da cena).

27 de jul de 2017

Dez Contos Escolhidos de Eça de Queirós


Como já devo ter comentado em uma ou outra resenha, quando fico de decidir se um autor está ou não dentro do meu gosto literário, sempre prezo pela leitura de uma segunda obra. Acho justo dar ao autor uma segunda chance, até porque o processo de escrita é mutável e altamente influenciável.

No caso de Eça de Queirós (1845 - 1900), li O Primo Basílio (1878) em agosto do ano passado, e a minha segunda leitura seria Os Maias (obra de 1888 que é considerada sua obra máxima), mas não pensei duas vezes em pedir esse livro de contos que a editora José Olympio disponibilizou aos parceiros. (José Olympio maravilhosa! <3)

Organizado pelo escritor e professor da Escola de Comunicação da UFRJ, essa edição (lindíssima por sinal) trás 9 contos publicados 1874 e 1898 além de um publicado após a morte do autor.

Entre contos já consagrados e outros menos conhecidos pelo público brasileiro, esta antologia condensa muito bem as características que fizeram Eça de Queiros ser considerado o grande nome do romance português moderno: a ironia sutil, o uso preciso das palavras e a narrativa que se desenvolve como um ser humano contado aos olhos do outro.

Tive alguma dificuldade no decorrer dos contos: por algum motivo, algumas coisas pareciam não se encaixar com o que eu me lembrava da narrativa de O Primo Basílio, como se estivesse lendo algo de outro autor muito diferente. Esses momentos foram maçantes, e me fez querer desistir da leitura algumas vezes, mas então havia algum reconhecimento e aí a leitura seguia.

De um modo geral, e apesar das coisas estranhas que me deram um nó na cabeça, o saldo desse livro é positivo. Eça de Queiros pode não ter conquistado um lugar alto no meu pódio, mas colocou-se entre os que me manterei lendo sempre que a oportunidade surgir.