18 de jan de 2018

A Gruta de Calipso - Celso Gomes


Em mil novecentos e trinta e nove, o navio da marinha mercante alemã Windhuk partiu para a Africa do Sul levando centenas de passageiros que queriam fugir da guerra que se aproximava.

A guerra, já tão próxima, foi declarada quando o navio estava em seu caminho de volta.

Temendo ser atacado, o Capitão do navio tomou o rumo do sul e aportou em Santos, onde ele e sua tripulação foram aprisionados em campos de concentração em Pindamonhangaba e em Guaratinguetá, onde ficariam até o final na guerra, em mil novecentos e quarenta e cinco.

Exceto por quatro passageiros, os únicos quatro judeus a bordo, que sairam no navio em um scaler na calada da noite e atravessaram a remos a distância que separavam o Windhuk da costa brasileira.

A Gruta de Calisto parte dessa curiosidade histórica para ficcionar a história de um dos fugitivos, o oficial médico de origem polonesa Jardel Grynzpan em Arraial do Cabo.

Do clima agitado de Hamburgo, Jardel vê-se preso em um lugar movido ao sabor das ondas do mar e ao sol, e assim a narrativa segue, lenta e ruminosa, acompanhando o enredar-se lento do médico judeu à atmosfera que o acolheu e aos reflexos da Segunda Guerra Mundial àquele lugarejo quase esquecido pelos deuses.

A leitura foi lenta, um tanto tediosa e melancólica em alguns momentos, mas imagino que, considerando a realidade em que Jardel se viu preso, seria difícil ser de outra forma. A narração de Celso Gomes incorporou muito bem o ambiente em que Jardel foi inserido (isso por si só é um mérito e tanto).

É preciso deixar claro aqui que, apesar de já ter lido um ou outro livro com temas parecidos, eu não sou muito chegada a esse tipo de literatura, especialmente considerando o conhecimento literário do personagem (que discutia, além de política, literatura com quem a conhecesse - o que foi coisa de três ou quatro personagens ao longo da narrativa).

16 de jan de 2018

A Queda - Albert Camus


Inicialmente escrito como um conto para a coletânea O Exílio e o Reino, A Queda tomou tal proporção que foi lançado, separadamente, como romance, em 1956.

Em um bar de Amsterdã, em um bar chamado Mexico-City, um estranho se aproxima de outro e lhe oferece ajuda para chamar o dono do bar para que lhes servissem uma bebida.

É assim que começa o londo monólogo (literalmente longo, pois perdurá por todo o livro) de nosso narrador. Auto-intitulado "juiz-penitente", Jean-Baptiste Clarence desfia ao seu interlocutor anonimo (e a nós) que aceita e assume suas responsabilidades pelos erros da humanidade, ao mesmo tempo em que se recusa a fazê-lo sozinho e deseja que cada um de nós faça o mesmo.

Nós, é claro, já que, além de falar com seu interlocutor, cuja voz jamais ouvimos, ele fala a seus leitores.

Mais uma vez, estamos falando de um narrador que fala ininterruptamente, mas, diferente do que acontece nos Trópicos de Hery Miller, me senti impelida a continuar a leitura mesmo sem entender muito bem para onde a história me levaria.

Todo esse diálogo, feito mais para converter mais um ao seu modo de viver do que para provar alguma teoria, não conseguiu superar (ou mesmo igualar) a impressão deixada por A Peste, talvez por este apresentar uma história menos subjetiva.

A verdade é que não sou muito fã de narradores que falam, falam, falam e parecem não falar muita coisa (embora admita que há pontos interessantes em A Queda).

12 de jan de 2018

A Mulher na Cabine 10 - Ruth Ware


Laura "Lo" Blacklock é jornalista de uma revista de turismo de 32 anos que mora em um quarto/cozinha/sala no subsolo de um prédio Londres. Na primeira cena deste livro, ela acorda assustada com o gato e, ao colocá-lo para fora de seu quarto percebe que tem um estranho em sua casa, todo encapuzado, com máscara no rosto, luvas de látex nas mãos segurando uma bolsa cara que ela tinha se dado o luxo de comprar.

Quando a chefe sai de atestado por conta da gravidez, ela recebe a oportunidade de embarcar na viagem inaugural de um cruzeiro de luxo chamado Aurora Boreal. Para Lo, tal viagem significa ter a chance de fazer contatos e provar que merece a tal promoção que lhe é prometida há tanto tempo, além de é claro, se recuperar do choque de ter sua casa invadida.

Os dois dias que separaram a invasão do embarque, não foram exatamente dias bons: além do pânico de se sentir vulnerável em sua própria casa, ela ataca o namorado recém chegado da Ucrânia durante um pesadelo e os dois ainda brigam quando uma discussão aparentemente inocente desbanca para um possível término.

Na primeira noite a em alto mar, ao acordar no meio da madrugada com um grito assustadoramente próximo, Lo é atraída para a varanda de sua cabine, chegando a tempo de ver o que lhe parece ser um pacote do tamanho de um corpo sendo jogado ao mar.

Ela age imediatamente, chamando por socorro e relatando o que viu e ouviu. Só que não há ninguém registrado na cabine 10, nenhum passageiro está faltando, nenhuma das pessoas a bordo se parece com a pessoa que ela viu ocupando a cabine ao lado e, pra completar, não há muita coisa que corrobore seu relato, ou lhe dá crédito para que acreditem nela.

Ninguém além dela acredita que há um assassino a bordo do Aurora Boreal.

O livro é bem escrito, muito bem narrado e rápido de se ler, mas é estranho pensar em A Mulher na Cabine 10 como um thriller. Comparado a outros livros do estilo (e aí incluo Jo Nesbo, e até mesmo Fogueira), A mulher na cabine 10 é, no máximo, um suspense bem desenvolvido.

10 de jan de 2018

Trópico de Capricórnio - Henry Miller


Mais uma vez, fui aos trópicos com Henry Miller. Dessa vez fomos ao sul do Equador, mas não se engane, ainda nos localizamos no Hemisfério Norte do mundo.

Em Trópico de Capricórnio (lançado em 1939, cinco anos após o lançamento de Trópico de Câncer), Miller nos fala sobre seu passado em solo americano, e não me limito a Nova York pois, em várias passagens que li ele falava de suas experiências em outros estados.

Mas, se no Trópico de Câncer tínhamos, mesmo que mal e porcamente, algum senso de cronologia, dessa vez ficamos completamente á deriva, soltos em diarreias verbais que alongam um parágrafo em duas ou três páginas (isso se tivermos alguma sorte).

Tá, eu entendo que, quando se fala sobre um assunto, vai-se com ele até o fim até encerrá-lo. O problema é quando ele engata e um para o outro e volta para o primeiro.

Sério, dois dias seguidos (três, temo eu) de dor de cabeça por não conseguir encarar Henry Miller em seu estado mais bruto.

A parte "boa" é que as putas ficaram mais raras, em compensação o cara não consegue ver uma boceta que quer enfiar o pau nela, e, não contente em contar seus próprios casos, também conta os casos dos amigos também. 

O que nos faz voltar à ladainha: "mil novecentos em trinta e nove", "mil novecentos e trinta e nove"... e se você acha que o mundo hoje é podre, leia os trópicos de Henry Miller (o de Capricórnio principalmente) e me fale se já não avançamos bastante desde então.

Não gosto de abandonar livros, especialmente quando se trata de livros de parceria, mas, sinceramente, não vejo razão para ir além das cento e sessenta e cinco páginas que já li.

8 de jan de 2018

Travessia - Leticia Wierchowski



Havia sentimentos ambíguos em relação a este livro: A Casa das Sete Mulheres e Um Farol no Pampa foram histórias lentas e tristes, em que a guerra separava amores e enclausurava tantos vivos quanto mortos, talvez por isso, em muitos momentos dessas leituras eu me pegava melancólica.

Resolvi encarar a leitura de Travessia por razões que, em resumo, se relacionam ao TOC que não me deixa ficar com trilogias (séries em geral) inacabadas.

Travessia, o livro que motivou a reedição dos livros anteriores, é um livro dedicado à história de amor vivida por Anita e Giuseppe Garibaldi.

Tânger (cidade do norte de Marrocos), fevereiro de mil oitocentos e cinquenta, o italiano Giuseppe Garibaldi está no exílio, longe da Itália, que o expulsou, mais uma vez, e colocou sua cabeça a prêmio; afastado de seus filhos, que ficaram com sua mãe em Nizza; e afastado de Anita, abandonada em uma às margens do mar Adriático poucas horas após sua morte. Agora com quarenta e quatro anos, a dores do coração e da alma se misturam às do corpo, ele já não é o homem vigosoro que comandou a travessia dos barcos pelos pampas gaúchos durante a Revolução Farroupilha.

As lembranças o afogam, e, justamente para desafogar-se de suas lembranças e dores, ele se senta na mesa em seu quarto de pensão e joga as palavras em folhas e mais folhas de papel.

(Olha que coisa: depois de separados por terra, por mar e pelo tempo, Garibaldi e Manoela finalmente se unem em uma atividade comum...)

E assim, voltamos voltamos ao pampa, nos primeiros dias de julho de mil oitocentos e trinta e nove, quarto ano da Revolução Farroupilha, Giuseppe terminara o romance mal começado entre ele e Manuela para dedicar-se à construção dos barcos que fariam sua primeira viagem por terra em direção ao mar, para que os Farroupilhas pudessem conquistar um porto para a República Juliana.

É de um desses barcos, que ele, em uma tarde de ócio, vê Ana Maria de Jesus, a sua Anita, a beira da praia, próxima à casa de seu tio, onde morava enquanto seu marido lutava na guerra ao lado dos imperialistas.

Ao escolhe-la, Giuseppe deu a Anita voz na história do mundo e em sua história, e, como a voz que é, Anita também se faz presente na narração, contando-nos sobre as noites e as lutas ao lado de seu José, sobre as angustias e os ciúmes que tanto a perseguiram durante sua vida ao lado do herói de tantos povos, até mesmo sobre sua morte, anos depois, na Itália.

Anita e Giuseppe Garibaldi foram humanos amados pelos deuses, e até mesmo a maior delas toma para si a narração de vez em quando.

Travessia manteve a ambiguidade de seus antecessores: ele é melancólico, e de alegrias passageiras, mas ele difere dos outros em outro aspecto: mesmo nos momentos em que a espera de Anita sobrepôs-se à sua própria personalidade (momentos em que ela ficou retida em casa e seu marido foi para a guerra), tem-se a sensação do movimento contínuo, seja pelas pelejas em que Garibaldi se envolvia, ou pelo lento crescer de seu ventre e de seus filhos.

A espera sufocante de A Casa das Sete Mulheres (de Manuela mais exatamente, que, por ser narradora, vicia-nos com sua espera eterna e infrutífera) é transformada em uma espera que gera resultados em múltiplas frentes, com Giuseppe libertando pessoas, cidades e países e Anita gestando e lutando suas próprias pelejas.

Travessia foi uma redenção de Leticia Wierchowski. Sua obra jamais foi ruim (isso jamais!), mas, de uma história de esperas e perdas, essa história de amor e de lutas se transformou em uma preciosidade única da qual não conseguirei me desvencilhar tão cedo. <3

22 de dez de 2017

A Fogueira - Krysten Ritter


Sabe quando você lê um livro e parece que você já leu aquela história em algum outro lugar? Então, A Fogueira me remeteu a dois livros.

Abby Willians livrou-se de todas as evidências de sua origem interiorana quando saiu de sua casa há dez anos, dois dias após completar dezoito anos e quatro após sua formatura no ensino médio.

Hoje, ela é uma próspera advogada especialista em direito ambiental, possui um moderno apartamento em Chicago e uma série de ficantes despretensiosos.

A vida minunciosamente construída começa a ruir quando ela e um outro advogado de sua empresa ficam responsáveis por investigar uma denuncia contra a Optimal Plastic, o coração econômico e empresa mais poderosa da pequena cidade de Barrens. 

De volta à cidade de sua infância, quase tudo e praticamente todos a lembram continuamente das coisas que aconteceram no passado enquanto e enfatizam das consequências de se procurar demais, lembranças do que ocorreu uma décadas atrás emergem, confundindo suas lembranças e minando suas certezas.

Tudo o que Abby sabe é que, em Barrens, o Jogo nunca foi somente uma brincadeira de escola.

Ao iniciar a leitura, o primeiro livro que me veio à mente foi O Coletor de Espíritos (o personagem foge de sua vida interiorana, mas é obrigado a voltar porque o passado o persegue de alguma forma), em seguida, veio a premissa de Em Águas Profundas (em que a história, por mais longe que vá, acaba sempre orbitando o mistério em volta de um desaparecimento/assassinato e que, a protagonista, devido a vários fatores traumatizantes, é desacreditada e chega as raias da loucura para conseguir que seu ponto de vista ser aceito). De "inédito", a autora às tramas a capacidade que a corrupção humana tem de piorar coisas que, por si só já são ruins o bastante.

É estranho tentar avaliar este livro: ao mesmo tempo em que gostei bastante do desenrolar da trama, o fato de ele me remeter a outros livros tão escancaradamente me desagrada, pois fico sem saber que foi uma feliz coincidência ou um caso proposital do uso de uma fórmula que dá certo. 

Uma coisa que também me incomodou um pouco neste livro foi que a revisão não me pareceu ter sido muito bem feita: há erros na formatação do texto e, ou a minha edição veio muito errada, ou há uma página inteira faltando no texto.