10 de out de 2015

Rebentar - Rafael Gallo

"Chama-se de órfão aquele que não tem pais. A condição dos pais e mães que perderam seus filhos, no entanto, nunca recebeu o nome."
Há trinta e seis anos, Angela perdeu seu filho em uma galeria durante uma tarde de compras. Há trinta e seis anos ela dedica sua vida à única tarefa de encontrá-lo.

Mas agora, depois de trinta e seis anos praticamente parada no tempo esperando o retorno de seu filho, ela quer se lembrar que ela e o marido ainda possuem algum tempo no mundo, quer se lembrar que possui o direito de ter uma vida.

Não se trata de uma desistência. Felipe, que tinha cinco anos quando fora perdido, não pode ser recuperado. O Felipe que se perdera, se ainda estivesse vivo, seria agora um homem feito, e o elo que o ligaria aos pais, as lembranças (os valores que estes sempre passam as suas crias) não poderia mais ser criado.

E é essa trajetória de redescoberta da vida que Rafael Gallo descreve em "Rebentar". É o passo a passo de uma mãe de um filho perdido que segue de volta para o presente, buscando um futuro em que a ausência do filho não norteie todas as suas ações.

Este livro possui uma mistura de tristeza profunda e esperança plácida em sua narrativa. É triste porque mostra, em detalhes, o abismo que é a tristeza de ter uma parte tão importante para uma mãe (uma parte de si que define uma mulher como mãe) ser mãe de um filho perdido. 

A esperança é por ver a caminhada de Ângela de volta ao mundo dos vivos, a um convívio mais íntimo com a parte de sua família que ficou quando Felipe foi levado, ao trabalho que largou para procurar por Felipe. 

É legal acompanhar essa jornada. O autor conseguiu fazer com que você torça por ela, chora com ela, se alegra com cada pequeno passo dado em direção à auto-libertação e até consegue absorver para si mesmo um pouco da força que a personagem demonstrou durante a narração.

Rafael Gallo teve sua estreia literária, um livro de contos chamado Réveillon e outros dias, premiada com o Prêmio Sesc de Literatura. A única coisa que posso dizer é que, se esses contos mostraram a mesma qualidade que Rebentar, o prêmio foi muito mais que merecido.

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