3 de ago de 2017

A Casa das Sete Mulheres - Leticia Wierzchowski


Lá pras bandas de 2003 a Rede Globo produziu uma minissérie que ficou marcada na minha memória pela quantidade de atores bonitos reunidos em uma mesma produção (recorde esse que não foi superado até hoje).

Anos depois descobri que A Casa das Sete Mulheres foi uma adaptação de um livro escrito pela escritora gaúcha Leticia Wierzchowski e, mais recentemente, descobri que a história não apenas era um livro como fazia parte de uma trilogia.

Em comemoração ao lançamento de "Travessia", livro que conclui a série iniciada em 2002, a Bertrand Brasil relançou os dois primeiros livros em um novo projeto gráfico.

Quem se lembra da série com certeza se lembra do enredo (difícil esquecer uma boa produção, e A Casa das Sete Mulheres foi excelente), mas, para quem não se lembra (ou não é dessa época),a história se passa durante a Revolução Farroupilha, revolução de caráter republicano ocorrida no sul do país entre os anos de 1835 e 1845. De um lado, estancieiros sulistas descontentes com o preço dos altos impostos cobrados pelo Império Brasileiro e também pelo baixo preço do charque e do couro, principais produtos da região.

Quando a guerra se fez iminente, o general Bento Gonçalves da Silva isolou as mulheres de sua família mais as crianças pequenas em uma estância afastadas das áreas de conflito com o propósito de protege-las. 

Era para ser por um curto período de tempo, mas a guerra começou a se arrastar. Um ano virou três. Três anos tornaram-se cinco, e de cinco, para dez. E nesse meio tempo, as sete mulheres confinadas naquela estância aprenderam a conviver com a solidão e o silêncio da guerra e a esperar... Sempre a esperar.

A narração é feita em duas frentes: uma que acompanha episódios pontuais de todos os personagens envolvidos na estancia e na guerra. Seus pensamentos, medos e desdobramentos são ditos em terceira pessoa, como uma câmera acompanhando a pessoa. A outra frente são os "Cadernos de Manuela" (que na série foi interpretada por Camila Morgado) e, como o próprio nome sugere, são partes de seu diário, escritos durante o confinamento no campo ou mesmo muitas décadas depois dele.

Este não foi um livro fácil de se ler, e também muito difícil de se largar. O conhecimento prévio da história (pelo que aprendemos na escola ou mesmo pelas reminiscencias da série) já adiantava que não era uma história com final feliz (e histórias de amores partidos me cortam o coração até reduzi-lo a cacos). 

Ao mesmo tempo, a narração de Leticia Wierzchowski é precisa e não te deixa largar o livro. Mesmo sabendo que esta é uma história de espera, me senti compelida a esperar e sofrer junto com aquelas mulheres, a sentir suas raras alegrias e a suportar o fardo das tristezas. No fim, além de tudo, é preciso também dividir o gosto amargo da derrota, e reunir os cacos para viver sem aqueles que pereceram ao longo da guerra.

Terminei este livro temendo pelo próximo, o Um Farol no Pampa deve chagar a minha casa por estes dias. Sei que vou lê-lo da mesma maneira que li A Casa das Sete Mulheres: agoniada pela espera e pela guerra em curso, e também envolvida em uma narração impecável e amarga.

31 de jul de 2017

Slade - Laurann Dohner


Não estive muito bem esse semana, Minha cabeça me pregou uma peça e tudo foi aumentado à décima potência por causa do meu ciclo. Abandonei um livro promissor antes mesmo da página sessenta por estar no meio de um descontrole emocional.

Meu remédio auto prescrito para esses casos é um erótico (gênero que, por algum motivo que desconheço, tem aparecido pouco pela minha lista de leitura). No caso, o que estava à mão no momento era Slade, o segundo volume da séria Novas Espécias, da Laurann Dohner.

A doutora Trisha Norbit é o que se pode chamar de "menina prodígio": entrou na faculdade de medicina aos quatorze anos e aos vinte e oito já era uma respeitada e competente plantonista do Hospital Mercy.

Em um dos seus turnos, ela ficou responsável por cuidar de um paciente resgatado dos laboratórios das Indústrias Mercile. Não há informações sobre ele, a não ser que ele é um hibrido entre homem e animal (raça canino para ser mais exata) e que é chamado de 215.

Durante uma rápida visita ao quarto do paciente antes de finalmente ir pra casa, 215 acorda repentinamente e Trisha se vê como alvo dos jogos de sedução de um poderoso homem de quase um metro e oitenta e olhos azuis de predador. Apesar do perigo iminente, Trisha e 215 acabam presos pelo desejo mútuo, mas o alarme soa e uma equipe de segurança entra no quarto hospitalar para resgatá-la.

Pouco tempo depois, agora trabalhando em Homeland (o lar dos que são conhecidos como Novas Espécies), Trisha reconhece 215, só que Slade não a reconhece. Para piorar, os dois vivem trocando farpas verbais e se insultando mutuamente em um quase talento de tirar um ao outro do estado normal de temperamento.

A relação dos dois fica mais intensa ainda quando, durante uma viagem até o futuro novo lar dos Novas Espécies, o carro de Trisha e Slade é atacado por integrantes de um grupo de ódio contra os Novas Espécies e os dois se envolvem em um grave acidente de carro e acabam se tornando caça.

Enquanto lutam para escapar dos perseguidores, o desejo que os envolveu no hospital ressurge e, enfim, os vencem. E as consequências desse envolvimento mudarão a vida das Novas Espécies para sempre.

Devorei Slade em pouco mais que vinte e quatro horas (infelizmente, tive que parar para dormir e trabalhar). O livro cumpriu seu objetivo e meu humor voltou ao normal lá pelas páginas 230. A história realmente me envolveu e me fez esquecer (ou para de pensar) o que me fez ficar para baixo. Nisso ela tem todo o mérito, mas em outros quesitos, tive algumas ressalvas.

Slade é legal e tal (um tanto babaca, é verdade), mas não conseguiu me conquistar. Achei incrível como todos os outros Novas Espécies machos me envolveram (e se sobressaíram na história) mais do que o protagonista (que deveria ser o macho alfa da história e roubar as atenções da coisa toda). Fiquei meio decepcionada com isso e me peguei pensando no quão loucamente quero ler Valiant (o hibrido entre humano e leão que roubou a cena enquanto Slade fazia o papel de babaca-alfa da cena).

27 de jul de 2017

Dez Contos Escolhidos de Eça de Queirós


Como já devo ter comentado em uma ou outra resenha, quando fico de decidir se um autor está ou não dentro do meu gosto literário, sempre prezo pela leitura de uma segunda obra. Acho justo dar ao autor uma segunda chance, até porque o processo de escrita é mutável e altamente influenciável.

No caso de Eça de Queirós (1845 - 1900), li O Primo Basílio (1878) em agosto do ano passado, e a minha segunda leitura seria Os Maias (obra de 1888 que é considerada sua obra máxima), mas não pensei duas vezes em pedir esse livro de contos que a editora José Olympio disponibilizou aos parceiros. (José Olympio maravilhosa! <3)

Organizado pelo escritor e professor da Escola de Comunicação da UFRJ, essa edição (lindíssima por sinal) trás 9 contos publicados 1874 e 1898 além de um publicado após a morte do autor.

Entre contos já consagrados e outros menos conhecidos pelo público brasileiro, esta antologia condensa muito bem as características que fizeram Eça de Queiros ser considerado o grande nome do romance português moderno: a ironia sutil, o uso preciso das palavras e a narrativa que se desenvolve como um ser humano contado aos olhos do outro.

Tive alguma dificuldade no decorrer dos contos: por algum motivo, algumas coisas pareciam não se encaixar com o que eu me lembrava da narrativa de O Primo Basílio, como se estivesse lendo algo de outro autor muito diferente. Esses momentos foram maçantes, e me fez querer desistir da leitura algumas vezes, mas então havia algum reconhecimento e aí a leitura seguia.

De um modo geral, e apesar das coisas estranhas que me deram um nó na cabeça, o saldo desse livro é positivo. Eça de Queiros pode não ter conquistado um lugar alto no meu pódio, mas colocou-se entre os que me manterei lendo sempre que a oportunidade surgir.

20 de jul de 2017

O Estranho - Kristen Ashley


Gwendolyn Kidd conheceu o homem dos seus sonhos entre um drink Cosmopolitan e outro durante uma noite de apoio moral à uma amiga bartender. Sem rodeios, ela o levou para sua casa e se entregou àquele estranho sedutor.

Acordar sozinha na manhã seguinte a deixou de coração partido, mas ele voltou para ela na calada da noite. E é assim a um ano e meio: o estranho chega na calada da noite e parte antes do amanhecer. os dois não trocam palavras (na verdade, eles sequer chegaram a trocar nomes), mas, desde a primeira noite, Gwen mal consegue suportar as noites em que ele não a visita.

Quando sua irmã mais nova se envolve, mais uma vez, com as pessoas erradas, Gwen decide procurar o ex-namorado dela e, quem sabe, conseguir ajudá-la, mas tudo o que consegue é se colocar na mira de pessoas ainda mais erradas e definitivamente muito mais perigosas.

Mas ela também consegue fazer com que, pela primeira vez em um ano e meio, ela veja (e fale!) com o estranho à luz do dia.

Hawk precisará sair das sombras que o cercam para proteger Gwen. Sair da confortável zona de conforto que é o papel de amante, e até passar por cima de seus próprios traumas, para ajudá-la. Mas talvez ela não goste muito de sua versão protetora...

O estranho possui 575 páginas e, confesso, passei boa parte delas rindo quase descontroladamente. Gwendolyn é uma mulher de 33 anos que poderia muito bem se passar por adolescente sem nunca poder ser chamada de imatura. Cabeça de vento (sim) com os hormônios a mil (com certeza), e chamariz para problemas (e para homens gostosos também).

Um adicional que faço é que anos atrás, comecei a ler um livro em que o protagonista masculino era tão exagerado em relação à proteção da protagonista feminina que cheguei a abandonar a história (e por pouco não joguei o exemplar na parede). Hawk tem seus momentos de exagero, não negarei este fato, mas a questão é que a autora soube trabalhar esse aspecto sem deixar que o bizarro saísse do controle, e ainda fez a coisa toda ser absurdamente hilária.

A trama foi bem construída, assim como os personagens, e a narração manteve a qualidade ao longo de todo o livro. Kristen Ashley com certeza é uma autora que prestarei atenção daqui pra frente.

13 de jul de 2017

A Fera em Mim - Serena Valentino


Quando a Universo dos livros anunciou que traria histórias dos sucessos da Diney fiquei bem animada (até porque a empreitada incluiria meu amadíssimo A Bela e a Fera), mas depois de Frozen - Um Coração Congelado, minha empolgação diminuiu bastante (o livro não acrescentou pouco ou praticamente nada à história).

A bem da verdade, estava com receio de sofrer a mesma coisa e acabar tendo nada além do mais do mesmo de uma história que amo tanto, mas senti que já estava na hora de ler este livro.

E fiquei muito, mas muito contente mesmo de ver os detalhes que Serena Valentino acrescentou à história, e mais ainda em ver que ela fez isso sem interferir em praticamente nada da história como a conhecemos.

Tomando por base o filme da Disney de 1991 (amor eterno e incondicional a essa versão <3) A Fera em Mim começa na primeira noite de Bela como Prisioneira da Fera.

No jardim, tentando entender o motivo de Bela ter se oferecido como prisioneira no lugar de seu pai, a Fera acaba se perdendo é confrontado por três fadas que atormentam sua vida desde que a feiticeira jogou a maldição sobre ele e sobre o castelo. Logo em seguida, já irado pelos desaforos, ele ainda precisa ouvir sua "convidada" chamando-o de monstro (embora até ele admitisse que havia alguma verdade nisso).

Recluso em seu aposento na Ala Oeste, a Fera se deixa levar pelas lembranças do passado, da época em que era um príncipe humano, belo e feliz com a vida que tinha.

A Fera em Mim merece ser lido merece ser lido não apenas por ser A Bela e a Fera, mas por nos permitir olhar tudo pelos olhos do príncipe (e também por ter algumas referencias muito maneiras sobre os outros contos de fadas). Com o filme (com os filmes aliás), é bem fácil perceber o sofrimento pelo qual ele teve que passar até encontrar o amor de Bela, mas, de alguma maneira, esse livro conseguiu construir a personalidade de Adam de maneira bem mais precisa.

10 de jul de 2017

A Ordem dos Clarividentes - Samantha Shannon


(A Ordem dos Clarividentes é continuação de Temporada dos Ossos).

Com muito custo, Paige escapou escapou da colônia penal Sheol I. Mas o preço foi alto e o fim do cativeiro não significou o fim dos problemas: muitos os sobreviventes estão desaparecidos e ela se tornou a pessoa mais procurada de Londres.

Enquanto Scion caça a Andarilha Onírica, os líderes do Sindicato (grupo "organizado" dos videntes) perdem sua liderança semanas antes do governo colocar em teste um novo tipo de sensor identificador de videntes. O Sublord e seu séquito são encontrados mortos em seu covil. A nova liderança sairá de um duelo entre todos os candidatos que se dispuserem a arriscar suas vidas.

Jaxon Hall e seus Sete Selos se preparam para assumir o palco. Mas uma Mariposa se arriscará para, enfim, revelar os segredos que dividem a comunidade clarividente a quase dois séculos.

Segredos que virão à tona quando os Rephaites saírem das sombras.

Na resenha de Temporada dos Ossos comentei que não sabia a razão de o livro ter continuação. A verdade é que eu estava completamente enganada. A podridão de Sheol não estava confinada ao seu campo de concentração de videntes, a corrupção do Sindicato estava muito mais enraizada do que eu poderia ter imaginado e havia muito mais coisa rolando do que sonhava minha vã filosofia.

Comparado ao livro anterior, A ordem dos Clarividentes é mais tensa. O jogo aumentou demais em seus desdobramentos e o destino dos videntes ficam a cada momento mais incerto.

Samantha Shannon, mais uma vez, mostrou que consegue manter a narração e a progressão da história em alto nível (e sim, a "comparação" com a diva J. K. Rowling se mantém nesses quesitos). O suspense as ondas de adrenalina que pairam sobre os personagens são facilmente sentidas pelos leitores e há muitas passagens que merecem toda a nossa atenção.

6 de jul de 2017

Um Romance Perigoso - Flávio Carneiro


Conheci Flávio Carneiro em um evento promovido pelo SESC em 2015 e tive a felicidade de ganhar o livro O Livro Roubado. Foi uma das melhores descobertas do ano e quase surtei ao ver um novo romance dele disponível para os parceiros da editora.

André se tornou detetive particular por acaso, mas não por acaso que ele continuou como tal. Ele e  o Gordo, seu "ajudante" e dono de um sebo Lapa, são leitores vorazes e aficionados por romances policiais, e suas bagagens literárias são suas maiores vantagens na hora investigação.

A noticia da primeira página do jornal é chocante: um famoso escritor de autoajuda foi encontrado morto em seu quarto de hotel após uma sessão de autógrafos. De acordo com as informações divulgadas pela policia, o escritor fora morto por uma injeção de estricnina no pescoço. Em uma parede, escrito em tinta vermelho sangue, os dizeres "X-9" e, próximo ao corpo, uma edição usada de A Irmãzinha, do escritor americano Raymond Chandler.

Menos de uma semana depois, outro assassinato: outro escritor de autoajuda, dessa vez em sua mansão, durante um jantar oferecido a mais de duzentos convidados, é encontrado morto por estricnina. Além da mesma edição de A Irmãzinha, um bilhete datilografado em tinta vermelha e encontrado no paletó da vitima com os dizeres "A CEIA".

A escrita de Flávio é maravilhosa, dinâmica, envolvente, e não deixa o leitor se perder nas divagações dos detetives (o que, para mim, sempre foi um ponto contra nos grandes nomes do gênero). André e Gordo quebram os pontos ais tensos da trama com as perambulações gastronômicas pelo Rio de Janeiro sem nunca deixar de desenvolver a linha investigativa da trama. E ele é muito bom na construções das referencias também (a que mais me impactou foi uma que, de um lado resgatava o tema do livro anterior, de outro abrangia o próprio livro em si).

Um Romance Perigoso é uma grande homenagem ao mundo romance policial. E, se você for do tipo que não faz a minima ideia do que ler sobre o gênero, André, Gordo e os contatos que os ajudam ao longo da investigação lhe darão várias indicações de por onde começar (eu, por exemplo, anotei todos e irei procurá-los!).

3 de jul de 2017

Um Beijo Inesquecível - Julia Quinn


Hyacint Bridgerton, a oitava e ultima rebenta de Violet e Edmund Bridgerton, é uma moça única, e ninguém com um mínimo de conhecimento sobre ela discordaria disso. Dona de uma inteligência quase cruel e de uma franqueza desconcertante, poucos são aqueles que conseguem lhe fazer companhia. 

E é justamente esse o problema: Hyacinth já está em sua quarta temporada e nenhum dos (poucos) pretendentes que a cortejara até aquele momento impressionou a caçula dos Bridgertons.

Durante um recital promovido pelos Smythe-Smith, ela conhece Gareth St. Clair, neto de Lady Danbury (uma das coroas mais legais de toda a série). Belo, atraente e, o mais incrível, capaz de manter uma conversa de verdade com Hyacinth (conseguindo, inclusive, a proeza de deixá-la momentaneamente sem fala e sentindo um frio na barriga de vez em quando).

Hyacinth está decidida a não se deixar levar por St. Clair. Ela sabe que a reputação dele é duvidosa e sabe também que possui uma reputação a zelar, mas o surgimento de um diário da avó italiana de St. Clair, e seus conhecimentos sobre o idioma, irá colocá-la diante de uma intrigante caçada.

Talvez nem ela nem Gareth estivessem procurando por todas as questões levantadas pelo diário da avó St. Clair, mas talvez eles encontrem todas as respostas que precisassem.

É estranho pensar que anos já se passaram desde o início da série (Anthony está "levemente grisalho") e que Hyacint e Greory estão em seus 22 e 24 anos respectivamente. E tudo o que pensamentos sobre ela ao longo dos livros anteriores estava certo afinal: é quase impossível controlar o gênio de Hyacint e ela sabe ser muito divertida quando quer.

Uma ressalva que encontrei neste livro foram os cortes de cena e a maneira como a autora mudava de um ponto de vista narrativo a outro: cada cena tinha uma introdução (uma linha que fosse) indicando, no mínimo, "quem", "onde" e "quando" (às vezes "o que" também). (Exemplo: "Apenas uma hora mais tarde..." ou "Ainda no beco, Gareth olha.."). Ficou estranho e sem sentido, e Julia Quinn já se mostrou competente o bastante para fazer uma ambientação rápida como essa de maneira integrada ao texto. 

29 de jun de 2017

A Senhora de Wildfell Hall - Anne Brontë


As icônicas irmãs Brontë (Charlotte, Anne e Emily) foram escritoras do século XVIII que desafiaram convenções e entraram para a história da literatura inglesa ao entregar ao mundo histórias como O Morro dos Ventos Uivantes (Emily), Jane Ayre (Charlotte) e Agnes Grey (Anne).

A mais nova das Brontë, Anne, também escreveu The Tenant of Wildfell Hall, em 1848, que a Editora Record traduziu como A Senhora de Wildfell Hall nessa linda edição de texto integral lançada em maio.

A estrutura do texto chama atenção: iniciada como uma carta sem data do narrador para seu amigo Halford, ele se predispõem a contar uma história "detalhada e interessante dos acontecimentos mais impressionados de sua juventude". Na carta, o narrador comenta que, na época em que o amigo lhe contara sua história, ele ficara magoado por ele não tinha nada para lhe contar em retribuição. Mas que agora, era, segundo ele, o momento propício para relembrar o passado.

E assim retornamos ao outono de 1827: Gilbert Markan é um fazendeiro de um condado não especificado que se manteve no ofício do pai a seu pedido, não desejado nada para o filho além da segurança que a propriedade da família pudesse lhe proporcionar. A cidade é pequena (ao ponto que somente três ou quatro famílias merecem algum destaque), todos se conhecem a anos e a fofoca corre solta (como em toda cidade de interior da época imagino).

As velhas fofocas recorrentes são esquecidas quando uma estranha chega à cidade e ocupa Wildfell Hall, a antiga casa do maior proprietários de terra da vizinhança, abandonada a mais de quinze anos, quando seu atual dono mudou-se para uma residencia mais moderna e mais próxima da cadela local.

A nova moradora, uma jovem viúva de 20 ou 25 anos, mudou-se com o filho de cinco anos e parecia mais que determinada em manter-se o mais socialmente afastada que fosse possível (o que era bem pouco para seu gosto graças às vizinhas que usavam de qualquer artifício para aproximar-se dela e lhe arrancar informações sobre seu passado).

De maneira suave, e sem qualquer segunda ou terceira intenção, Gilbert e Sra. Graham, mais tarde, Helen, passam a dividir uma amizade tenra, mas que ela, ao perceber que ele alimentava sentimentos além da amizade, advertiu-o que nada além de amizade poderia acontecer entre eles.

Depois de alguns capítulos dolorosos, o segredo de Helen nos é revelado, por meio de seu diário pessoal, que ela entrega a Gilbert para que ele pudesse entender seus motivos. Achei incrível como ela conseguiu mudar os narradores sem mudar a estrutura da narração e nem o tom da fala. tanto um quanto o outro, expuseram seus sentimentos e segredos no papel de forma tão similar que não me admirou ter nascido um sentimento mais forte que a amizade.

A leitura não é do tipo que se pode fazer apressadamente (aliás, se não me falha a memória, poucos entre os escritos no século XVII possuem essa característica), Anne te convida a uma leitura calma e reflexiva dos personagens e da sociedade que os cerca. Aliás, A Senhora de Wildfell Hall, assim como o livro anterior da autora, Agnes Grey, se mostrou ser uma crítica escancarada aos costumes da época, em especial à condição da mulher.

22 de jun de 2017

Cinder - Marissa Meyer


Cinder é uma garota de dezesseis anos que tem algumas particularidades bem singulares: primeira, ela é a melhor mecânica da região (dizem que de toda Nova Pequim), segunda (e, na verdade, razão da primeira particularidade), ela é um ciborg, uma humana "concertada" com partes mecânicas (no caso dela, um pouco mais de 36 por cento do corpo, incluindo aí uma painel de controle capaz de baixar, por exemplo, esquemas mecânicos de toda e qualquer máquina que possa precisar de reparos.

Adotada por um casal quando ainda era muito criança, Cinder foi transformada em capacho doméstico após seu pai adotivo morrer. Sob a tutela de sua madrasta e de suas duas filhas (uma odiosa, outra não), ela é obrigada a trabalhar em um estande de mecânica para sustentar, sozinha, toda a família.

Até que em uma fatídica tarde sua alteza imperial, o príncipe Kai, a procura na oficina e pede que conserte seu androide doméstico o mais rápido possível, de preferencia antes do baile anual. Até aí, beleza, mas (só para desandar um pouquinho), a irmã "não-má" é contaminada pela letumose, uma epidemia de nível mundial, altamente contagiosa, sem cura e que mata dolorosamente rápido. E só para piorar mais um pouquinho, sua madrasta a entrega como voluntária para um programa de pesquisa de doenças que usa ciborgs como cobaias. E ninguém nunca voltou de lá para contar a história.

A história se desenrola como quem não quer nada. Apenas uma garota de dezesseis anos sustentando a casa em que convive com pessoas detestáveis e falando (e pensando) excessivamente demais no príncipe imperial. Mas ok, né, ela só tem dezesseis anos.

Aí a história começa a se formar e você percebe que não é só uma garota tentando viver sua vida comum. Em resumo: a leitura é boa, e a história é tranquila a ponto de você não ver as páginas passando. Não é exatamente uma maravilha, embora tenha melhorado bastante quando o príncipe ficou em um plano diferente que o primeiro (talvez em algum lugar entre o primeiro e segundo plano) mas, ainda assim, me deixou curiosa relação ao próximo livro (que já pedi emprestado por sinal).

19 de jun de 2017

A Filha do Sangue - Anne Bishop


O mundo de A filha do Sangue é diferente de tudo o que já li até agora. 

Nesse mundo, a magia é proveniente de Joias de Poder e a hierarquia é matriarcal. Àqueles que são atribuídas Joias, diz-se que pertence aos Sangue. Os machos, que, assim como as mulheres, podem, ou não, possuir uma Joia tem a função de proteger e servir às Rainhas, regentes do Sangue, coração da terra e centro moral do povo de seu território.

Houve um tempo em que o conceito de servir à sua Rainha era a gloria e honra de um macho. Mas a essência dos Sangue foi corrompida, e eles passaram a ser brutalizados desde a infância e a servir de escravos dos caprichos de Rainhas gananciosas e cruéis. 

Séculos se seguiram à profecia. A Feiticeira passou a ser mais uma lenda entre tantas outras que povoavam a história da terra... Até que uma criança de cabelos dourados e travessos olhos azuis-safira perturbou a raiva e o clamor de Daemon SaDiabo, um Príncipe dos Senhores da Guerra. Raiva por terem feito o que fizeram a seu amado irmão, clamor por uma Rainha que respeitasse e acreditasse.

Em outra parte do mundo, no Inferno, para ser mais exata, um outro ser, mais antigo e mais poderoso que Daemon também aguardava, impelido por uma promessa feita séculos antes de esperar a filha de sua alma. O inferno não é um lugar para os vivos, mas uma garotinha brilhou no mundo escuro e Saetan SaDiabo viu diante de si a Feiticeira a quem esperava.

Jaenelle Angelline, doze anos, conhecida em muitos lugares (lugares demais não necessariamente localizados no mesmo plano) está no centro de tudo. A "Feiticeira", aquela que restaurará os Sangue ao que era, ao que nunca deveriam ter deixado de ser.

A narrativa começa complicada. Não complicada de difícil, mas complicada de confusa. Os nomes, títulos e a dinâmica do universo de Anne Bishop embaralham a mente e a linha da narrativa é difusa. Mas então todas as cenas aparentemente soltas se conectam a uma progressão e tudo passa a fazer sentido. E é genial, incrivelmente bem construído e sedutoramente viciante.

15 de jun de 2017

O Livro de Sangue e Sombra - Robin Wasserman


Nora Kane é uma estudante de 15 anos que, graças a seu excelente conhecimento em latim (idioma que aprendeu com o pai e que passou a ser um refúgio quando as atribulações começaram em sua casa), conseguiu uma vaga no grupo de pesquisa da universidade local sobre um alquimista do século XV.

Relegada à tarefa (um tanto secundária) de traduzir as cartas enviadas pela filha do alquimista ao seu irmão mais velho, Nora acaba encontrando uma pista sobre a Lumen Dei um prodígio da engenharia da época que, segundo dizia a lenda, dava ao homem o conhecimento divino direto de sua fonte.

A noite da comemoração pela descoberta que asseguraria o futuro acadêmico de todos os envolvidos não terminou exatamente como o previsto: Chris, seu melhor amigo, morto a facadas em sua própria sala de estar; Adriane, sua amiga e namorada de Chris, catatônica ao lado do corpo com cortes em ambos os lados da boca; e Max, seu namorado. não apenas desaparecido como principal suspeito do crime.

Nora não acredita que a culpa tenha sido de Max. Como poderia? Mas como ele pode deixá-la sozinha para enfrentar o que aquele assassinato horrível causou?

De alguma maneira ela sabe: a chave para encontrar o assassino de seu melhor amigo e Max e inocentar seu namorado das acusações contra ele está em Praga, a cidade onde a lenda da Lumen Dei sobrevive em meio a criptas, igrejas, cemitérios e séculos de histórias.

Robin Wasserman é uma autora a ser vigiada de perto: trama inteligente, excelente estilo narrativo, boa construção de personagem e enredo bem formulado. A história te prende até a última linha e, ao final, você consegue sentir exatamente como Nora: não há como sair ileso. A partir dali a questão é como sobreviver depois do ocorrido.

Fazia muito que não encontrava uma história tão boa assim. A leitura foi excelente e definitivamente a recomendo.

8 de jun de 2017

Por Que eu Leio?


A resposta a essa pergunta mudou ao longo dos anos.

A primeira resposta seria "porque era o que dava para fazer sozinha". Pois é. Filha única, vivendo em uma rua em que os filhos dos vizinhos tinham quinze quando você tinha nove e sofrendo (um certo grau de) bullying na escola. Brincar de boneca no tapete da sala era divertido, mas chegava um momento em que o tédio dominava e seus pais queriam ver TV sem pisar em coisas de Barbie por toda a sala. Ver minha mãe lendo me incentivava a me perder por horas e horas em Um Tesouro de Contos de Fadas, livro ainda hoje muito querido e jamais esquecido.

Alguns anos mais tarde, a resposta se desdobraria para "leio porque é seguro e divertido". Por essa época, confesso, os livros disputaram (e quase perderam) espaço para outras formas de entretenimento. Foram momentos difíceis, em que muitas vezes eu me perguntava se havia algo de errado comigo, ou por que as pessoas ao meu redor (leia-se, principalmente, coleguinhas de escola) não gostavam de mim, mas também foram meus momentos mais maravilhosos: foi a época em que fui à Nárnia e à Terra Média pela primeira vez. Recebi a carta de Hogwarts pouco tempo depois.

A parti desse ponto, passei a ler por uma mistura de escape, prazer e conforto (não necessariamente nessa ordem). Lugares distantes, duelos ousados, feitiços e príncipes disfarçados me disseram, continuamente, e de diferentes maneiras, que tudo bem ser diferente e que eu não estava sozinha. Ia ser difícil, as pessoas iriam tentar me machucar, mas eu ia conseguir passar por aquela fase. Sempre haveria um mago cinzento gritando ao monstro que ele não passaria. Ou uma criatura prateada (que hoje deve se parecer com um cachorro) mantendo as trevas longe. 

Os livros me davam força e conforto, e ainda dão para falar a verdade.

Mais ou menos no Ensino Médio, graças ao meu professor de literatura, minha cabeça assimilou que os livros gravam, em maior ou menos grau, a época em que em foram escritos, e que obras de cem, cento e cinquenta anos podem vencer a brevidade de uma vida. Sempre fico embasbacada com isso. Conseguem imaginar algo de mil e duzentos anos ainda vivo e presente? Ou de dois mil anos? Então, alguns de nossos conhecimentos podem datar de ainda mais longe e, no entanto, os usamos cotidianamente. Ideias utilizadas por algum autor do século passado são re-inventadas e usadas no estouro de vendas atual. É o mesmo, mas é diferente. É todo um universo ressurgindo de suas cinzas para continuar vivo.

Hoje, eu posso dizer que leio porque os livros me confortam, me dão força e me mostram que existe muito mais lá fora do que sonha minha parca filosofia. Graças aos livros, vivo, viajo, aprendo, construo, destruo e refaço tudo de novo.

Leio para conhecer a mim mesma e ao outro. 
Leio para me conectar ao passado, ao presente e ao futuro. 
Leio para suportar a solidão e manter a sanidade. 
Leio para esquecer e curar meus machucados e para reforçar minhas defesas contra pancadas alheias. 
Leio para me incentivar a não desistir. 
Leio para continuar acreditando.

E vocês, por que leem?

(Essa postagem foi baseada em uma pergunta da Editora Harper Collins em comemoração aos duzentos anos da existência da editora.)

5 de jun de 2017

Belas Maldições - Terry Pratchett e Neil Gaiman


Céus e Infernos decidiram, e o mundo está com seus dias contados. Anos, para ser mais exato. Dali a exatos onze anos, O Grande Plano Divino será concretizado. Não há como escapar do Grande Final. A não ser que uma freira satanista entregar o bebê Anticristo para o casal errado.

Junte a isso um anjo e um demônio que veem nessa guerra a perda iminente de suas tão confortáveis (embora não exatamente pacatas) vidas terrenas. Ao perceberem o rumo inesperado do plano que fora planejado séculos e séculos atrás, os dois não sabem direito como agir: seguir o plano original e lutar na Guerra Celestial mais uma vez ou tentar um plano B, mesmo sabendo que eles podem (quase com certeza) enfrentar o resto da Eternidade sofrendo as consequências de sua provável falha.

Querendo evitar o Armagedon e encontrar o Anticristo perdido (que agora é um garotinho de onze anos que vive numa cidadezinha tranquila do interior) eles também encontram uma jovem ocultista dona do único livro da humanidade que prevê, com uma assombrosa exatidão, os acontecimentos do fim do mundo, a existência de caçadores de bruxas e, (por que não?) os cavaleiros do Apocalipse (em suas versões século XX).

Aziraphale (o anjo) e Crowley (o demônio) precisam ser rápidos, o tempo não é a única coisa que está acabando.

De modo geral, a história possui três momentos: o início, com Aziraphale e Crowley conversando nos primórdios da criação, o "onze anos antes", e o Armagedon e consequências. Para ser bem sincera, a parte que mais gostei, e a que fez a leitura ser a mais divertida de todo o livro, foi o final da terceira parte (as consequências). 

No mais, a coisa toda é tão absurda e aleatória quanto a mente fértil de uma criança de onze anos de idade cuja ideia de passatempo é "aprontar" na vizinhança de uma cidade pequena e "enfrentar" o "valentão" da escola.

Achei interessante a maneira como os quatro cavaleiros do Apocalipse foram trabalhados, a adaptação deles ao século XXI foi bem feita (especialmente o Morte, sei lá, achei digno *risos*).

Pessoalmente, este livro não faz jus à toda fama de bom escritor que Neil Gaiman tem (tudo bem que não posso falar muita coisa sobre ele, mas sempre se espera mais de alguém que é tão elogiado pela sua boa escrita).

1 de jun de 2017

A Aventura do Estilo - Henry James e Robert Louis Stevenson



Apresentada pela mestre em Teoria da Literatura e em Literatura Comparada pela USP, Marina Brendan, o livro A Aventura do Estilo, reúne algumas correspondências trocadas entre os autores ingleses Henry James (1843-1916) e Robert Louis Stevenson (1850-1894) e alguns ensaios que um fez sobre a pessoa e a literatura do outro.

A relação entre esses dois autores tão diferentes (mas nem tanto) em sua produção teve início em  abril de 1884, por meio do ensaio "A Arte da Ficção" escrito por H. James e publicado na Longman's Magazine, ao qual R.L. Stevenson respondeu, publicamente com "Um Humilde Protesto", publicado na mesma revista, em dezembro do mesmo ano. O educado debate literário iniciou uma contínua troca de cartas entre os dois, onde ambos falavam sobre suas vidas, sobre suas produções, e também sobre o cenário literário que eles habitavam.

Ao encontrar este livro nas news da Rocco, confesso que não sabia exatamente o que esperar, tive experiências anteriores com os dois autores, é verdade, mas conhecer uma pessoa por meio de sua obra é uma coisa que não necessariamente corresponde à esfera pessoal desse indivíduo, mas fiquei animada com ele desde a leitura das orelhas: diante de mim esteva o registro de dois autores que sobreviveram ao teste do tempo, e eu só conseguia me sentir como uma mosquinha presenciando o encontro de dois gigantes.

Me surpreendi com os dois autores na verdade. E mais ainda por ver que nós leitores sofremos de dramas bastantes parecidos com os dramas vividos pelos leitores de antigamente: o drama de esperar a continuação de uma história, a vontade quase incontrolável de ajoelhar-se diante de seu autor favorito, as discussões intermináveis sobre o andamento das leituras e sobre o estilo de escrita alheio.

As cartas, infelizmente, rarearam depois que Stevenson mudou-se para Samoa (Estados Unidos) por causa do péssimo sistema de correios da ilha, ainda assim, os dois mantiveram a amizade viva até a repentina morte de Stevenson em 1894. E é de James, falando sobre Stevenson os dois ensaios que encerram este livro.

É triste ver que um livro tão rico desperta tão pouco interesse. Para se ter uma ideia, na página do skoob, apenas 20 pessoas o marcaram como "quero ler", e apenas uma, eu, no caso, o está lendo. 

22 de mai de 2017

Rastros de Sangue - Val McDermid


Rastros de Sangue é um bom exemplo de "sequencia de histórias independentes" que não são tão independentes assim. Em O Canto da Sereia, livro de 2014 também publicado pela Record, a detetive Carol Jordan recorre ao psicólogo Tonny Hill quando se depara com quatro corpos mutilados e torturados. O conhecimento de Hill o permite entrar na mente do criminoso para estabelecer um perfil que possibilite desvendar sua identidade. 

Dá certo, mas tanto Hill quanto Jordan saem traumatizados do caso.

O enredo de Rastros de Sangue começa com o primeiro dia da recém-criada Força-Tarefa Nacional de Criação de Perfis, uma vitória conquistada depois do bem-sucedido desfecho do caso do "Assassino de Bonecas".

Durante o treinamento da força-tarefa, Tonny passou um exercício aparentemente simples aos seus treinees: encontrar, a partir de uma séries de arquivos de casos não solucionados de adolescentes desaparecidos, possíveis conexões, mesmo que hipotéticas. Ao longo do brainstorming, uma hipótese um tanto descabida, mas substancialmente intrigante surge. 

A teoria é descartada pelo grupo, mas quando a pessoa que a conjecturou aparece cruelmente morta, eles sabem: no meio de todos os desaparecimentos estudados, eles haviam encontrado o rastro de um serial killer.

Uma nova caçada foi iniciada.

Carol Jordan não ficou indiferente. Mesmo não fazendo parte da , sua jurisdição (e graças a alguma pressão de seu chefe imediato), ela foi a primeira a pedir a consultoria da Força-Tarefa Nacional de Criação de Perfis em um caso de incêndios em série na cidade em que estava alocada. Jordan estava na sala durante o brainstorming, e sentiu tanto quanto os outros ao saber o que acontecera ao treinee.

Voltando ao primeiro parágrafo desta resenha, apesar de as histórias serem claramente independentes uma das outras, em vários trechos tive dificuldade em entender a referência ao primeiro livro. Já vi autores que fazem questão de dar uma esplainada rápida sobre o que ocorrera, mas McDermid não se dá ao trabalho de fazê-lo. A informação ficou incompleta e, por isso, não foi uma experiência de leitura muito boa.

Quanto ao ritmo de leitura, bem, este livro tem 488 páginas e tive a impressão de que a história mesmo só começou nas 150 ultimas. Não relevou muito essa questão pois, mesmo com todas as informações reunidas, encontrar o fio de Ariadne que os conduziria a um motivo sólido para prender a pessoa em questão foi difícil. Mas sabe quando você tem a impressão de que algumas coisas poderiam ser encurtadas? Talvez menos dramas externos (leia-se a coisa inexplicada entre Tony e Carol, que, por sua vez, tem muito a ver com a falta de entendimento prévio sobre o assunto), ou coisa assim. Sei que demorei alguns dias nas primeiras trezentas e poucas páginas e somente algumas horas na parte final do enredo.

Por fim, alguns erros de ortografia ao longo da tradução pareceram ter sido estrategicamente posicionados justamente nos momentos em que minha concentração estava de boa para excelente, me desconcentrando justamente quando eu conseguia algum ritmo decente.

Rastros de Sangue, infelizmente, não foi uma leitura exatamente proveitosa.

15 de mai de 2017

A Garota do Calendário (Julho) - Audrey Carlan


Aos ocorrências de Junho não fizeram com que Mia desistisse de sua jornada, a dívida com o ex-namorado e agiota que colocou seu pai em uma cama de hospital em estado de coma está menor, mas ainda longe de acabar. Depois de recarregar as energias ao lado de amigos queridos como Mase e Tai, a hora de partir para o próximo cliente chegou.

Em Miami, o cliente da vez é o astro do hip-hop Anton Santiago, mais conhecido como Latin Lov-ah. Ele está produzindo um vídeo-clipe para sua nova música de trabalho e, após ver fotos de Mia nas revistas com seus outros clientes, sabe que ela é a garota ideal para seu projeto.

Julho é um mês amargo, as lembranças do mês anterior estão recentes demais e, em vários momentos, lembranças do terrível episódio vieram a tona e desequilibraram o clima entre Mia e os recém conhecidos. Mas Julho também foi um mês de compreensão, entendimento e, por que não dizer, novos começos.

Gostei Julho por que Audrey conseguiu tratar muito bem um assunto delicado (por razões de spoiler, não posso falar muito, mas, se você por ventura já leu o livro de Junho, saberá do que estou falando). Assim como me enchi de alegria quando as cartas foram postas na mesa e ela admitiu algo que sabe desde Janeiro.

11 de mai de 2017

O Perfume - Patrick Suskind


Lá pras bandas de 2008, 2009, minha mãe e eu assistimos a um filme incrível sobre um rapaz que, na tentativa de produzir o melhor perfume do mundo, matava garotas para roubar seu aroma. Lembro-me que foi um dos filmes mais incríveis que vi naquele ano, e nunca consegui me esquecer dele (não totalmente pelo menos).

Anos mais tarde (acho que já estávamos em 2011, 2012 talvez), descobri que tal filme fora baseado em um livro alemão de 1985, e desde então comecei uma incessante por este título (assim como a outros livros que descobri na época). Final do mês passado, um outro amigo, dono de sebo, me presenteou com essa edição maravilhosa de 1995, época em que a Editora Record ainda era uma editora chamada Altaya.

O Perfume é uma história ambientada na França do século XVIII. Paris, a maior e mais populosa cidade do reino, é uma aglomeração fedorenta e nojenta em que humanos demais convivem com detritos e alimentos podres demais e o fedor resultante disso é uma massa de ar podre estagnada entre as construções da cidade.

É nessa cidade que nasce Jean-Baptiste Grenouille nasce. Embaixo de uma barraca de peixe podre, deixado pela mãe no meio da sujeira e da lama para morrer, assim como ela fizera com quatro outros recém nascidos antes dele. Mas aquele bebê denuncia sua vitalidade chorando, e, nesse simples ato de chorar, condena a mãe à forca.

Levado a um orfanato, a ama de leite que o amamenta não demora muito e o repele, devolvendo-o ao orfanato que a contratou e recusa uma oferta melhor sob a alegação de que aquele bebê "não cheira como os bebês devem cheirar". E mesmo depois de várias chacotas, o frei que o recebe da ama também o rechaça para um orfanato qualquer.

E Grenouille a tudo cheirava e a tudo lembrava. E, enquanto crescia e seu olfato se desenvolvia, todos os odores de Paris eram guardados em sua memória, dos mais pútridos até os mais delicados, e o olfato também lhe era base para o aprendizado das palavras, e aqueles signos linguísticos que designassem algo incorpóreo, como um conceito ou uma ideia, lhe eram difíceis demais, insignificantes.

Aos oito foi mandado para um curtume de carne, e aos doze conseguiu, graças aos seus dotes olfativos e à ambição do mestre perfumista, entrar no mundo da fabricação dos perfumes, onde aprendeu a mensurar substâncias, a misturar fragrâncias e a capturar odores simples.

Mas não era o bastante. Ele queria produzir o melhor perfume do mundo. Queria fazer para si o melhor perfume do mundo, e queria mostrar ao mundo que ele era o melhor perfumista do mundo. Tal perfume, ele descobriu, era composto pelo odor de certas jovens, pacientemente colhidos com perícia de mestre. Vinte e quatro jovens assassinadas para coroar o odor de uma jovem cujo o aroma era melhor que todo o que Grenouille havia cheirado até então.

O melhor perfume do mundo foi também sua ruína. Na vontade de se tornar um Deus entre os homens, Grenouille viu que a orgia desenfreada que uma única gota de sua preciosa criação lhe causava nojo e asco. E esse, ele sabia, era o fim. Mais precisamente, era o seu fim.

Depois de uma sequencia de livros abandonados, O Perfume foi um excelente retorno à crença de que existem excelentes livros no mundo. A narração de Susking é impecável e tudo, da primeira á ultima linha, está muito bem amarrado.

Livro com certeza recomendadíssimo. <3

5 de mai de 2017

Tardes Sensuais - Mila Wander, Nana Pauvolih, S. Miller, Danilo Barbosa, Janaina Rico


Depois de dois livros abandonados, apelei para um livro que foi muito bem elogiado na época de seu lançamento. Composto por cinco contos eróticos, Tardes Sensuais tem, como ponto convergente, os eventos ao entardecer e personagens mais que dispostos a satisfazer seus parceiros e/ou parceiras.

Falando como um todo, os cinco contos foram muito bem no meu conceito. Narrações bem feitas, personagens construídos e coisa e tal, mas tive minhas ressalvas no segundo conto (Um café da tarde) em relação ao linguajar do linguajar masculino (sabe quando uma pessoa usa diminutivo demais ao ponto de você não conseguir levar o cara a sério? Então, essa foi a minha impressão) e também quanto a uma das personagens secundárias (ou entendi a coisa toda muito errado, ou a criança de 12 anos agia como uma de 15, 16. Estranho não?). 

Palavras e Gemidos, de Danilo Barbosa, foi a mistura mais perfeita que já vi (ou li) entre literatura, sedução e erotismo, e nem por um segundo deixou de ficar entre os meus contos favoritos. Enquanto te Vigiava (Nila Wander) é um tanto estranho, já que a coisa toda acontece entre uma repórter paparazzi super eficiente (até demais alias) e seu artista alvo, mas acho que foi o que mais me fez rir (talvez pelo absurdo da situação).

Tarde Doce como Algodão-Doce (Nana Pauvolih) foi, de longe, o conto que mais gostei. O estilo narrativo dela e a história em si corresponderam bastante com todos os elogios que ouvi sobre os livros dela (e, pelo amor de Deus, preciso daquele sargento na minha vida!)

O final de Tabu, Prazer e Reencontro foi o mais fofo de todos e quase (eu disse quase) conseguiu fazer meus olhos ficarem úmidos. hahahaah

2 de mai de 2017

A Beleza é uma Ferida - Eka Kurniawan


Ainda não sei o que é pior: ter me estourado uma vez com Resistência ou ter me estourado uma segunda vez com este livro. Lá fui eu escolher um título pela capa ao me deparar com essa maravilha de ilustração (um tanto bizarra, eu sei, mas, ainda assim, linda) e ainda possuía o bônus de me permitir conhecer um autor exótico. Então pensei cá comigo, por que não?

A Beleza é uma Ferida foi escrita em 2002 por um indonésio chamado Eka Kurniawan. A história mistura fatos reais e fictícios para contar a história de Dewi Ayu, uma mestiça indo-holandesa que levanta de seu tumulo 21 anos após ser enterrada viva. 

Só que, para  falar a verdade, a coisa toda é mais sobre a história da Indonésia sobre qualquer outra coisa. Quer dizer, é claro que a história do país interfere na vida de seus personagens, mas o detalhamento das escaramuças entre exércitos (legais ou não) e demais forças atuantes é cansativo.

A vida de Dewi Ayu tão pouco ajuda: presa em uma prisão japonesa, tornada prostituta por seus carcereiros (profissão que rendeu a ela fama sem igual na pequena cidade (vila?) de Halimunda, viu suas três filhas mais velhas (todas consideradas extremamente belas) se envolverem com homens nada louváveis (embora ela também não possa falar muito sobre o assunto), teve sua quarta filha quase aos cinquenta anos e foi enterrada doze dias após o parto porque "decidira que já tinha feito o bastante pelo mundo".

Fez algum sentido? Não sei você, mas eu realmente achei que não.

Apesar de ter resistido até a página 290, desisti. A Beleza é uma Ferida estava me cansando e, sinceramente, estava sendo um esforço inútil. Para todos os efeitos, aqui fica o meu aviso: cuidado com as capas dos livros: elas enganam. E muito.

28 de abr de 2017

O Conde Enfeitiçado - Julia Quinn


Michael Stirling é conhecido por toda a Londres por ser o libertino mais lendário que já frequentou a alta sociedade até então. Ele passou por um daqueles momentos que mudam sua vida para sempre na noite em que conheceu Francesca Bridgerton, apaixonando-se por ela praticamente à primeira vista.

Infelizmente para ele, tal evento extraordinário aconteceu no jantar de ensaio do casamento dela. Dali a trinta e seis horas, Francesca seria uma mulher casada. Com seu primo, a quem ele sempre considerara como irmão.

Os anos que se seguiram não poderiam ser descritos de outra forma que não tortura: Michael escondia ferrenhamente seu amor enquanto frequentava a casa de John e Francesca praticamente todos os dias, tanto pela grande estima a John quando pela amizade que acabara por cultivar com Francesca.

Em uma noite porém, John foi dormir para curar-se de uma dor de cabeça incomoda e não acordara mais. A ruptura brusca da amizade que havia nascido entre os três e os acontecimentos posteriores levaram a uma súbita ruptura entre os dois sobreviventes, a ponto de Michael isolar-se em outro continente para manter-se afastado de Francesca, e do que ele sentia por ela.

Mas os quatro anos de separação não foram o bastante. Ele ainda a ama e ela... Ela o acha diferente. Não sabe como, nem como aconteceu exatamente, mas seja lá o que for, o fez olhá-lo de outra maneira.

Algumas coisas são como um feitiço impossível de se escapar. O amor é uma delas.

Diferente de todos os outros livros Bridgertons até agora, O Conde Enfeitiçado tem um toque de tragédia que me fez ficar a todo o momento prestes a cair em lágrimas (e olha que eu bem que gosto de um drama em família). Gostei de ter visto o trabalho de pesquisa que a autora desenvolveu para tornar tudo mais verossímil e mais ainda de saber que parte da renda deste livro foi destinada a fundo de pesquisas destinado a pesquisa de remédios para a malária (para entender a referencia, favor ler o livro).

Juilia Quinn está se tornando uma de minhas autoras preferidas quando o assunto é quebra de ressaca literária. <3

25 de abr de 2017

Resistência - Affinity Konar


As vezes você escolhe um livro pela capa e se dá muito bem com isso. Em outras, se arrepende amargamente por não ter prestado mais atenção à sinopse. Resistência está no segundo caso.

Pearl e Stasha Zagorski são gêmeas idênticas que foram tiradas do vagão em que viajavam junto com sua mãe e avô para serem levadas ao campo de concentração de Aushwitz. Por dividirem a mesma carga genética, elas atraíram a curiosidade do Dr. Joseph Mengele, o Anjo da Morte ale.

Entre os horrores do campo de concentração e os experimentos de Menguele, Pearl e Stasha procuram se manter unidas e preservar o amor familiar e a esperança, mas mesmo o mundo particular criado por elas é frágil.

A história não para por aí mas, confesso, não consegui avançar.

Depois de tantos anos lendo o máximo de livros que consegui, achei que havia criado certa resistência contra algumas histórias. Algum tipo de barreira que não me deixasse imergir demais em enredos que se aprofundassem no sofrimento humano e, mais ainda, quando esse sofrimento é imposto a crianças. Bem, com Resistência descobri que continuo tão vulnerável quanto antes.

A muito custo consegui chegar á página 86, e isso foi depois de quatro dias me obrigando a continuar a leitura, mas não deu.

22 de abr de 2017

Bartleby, O Escrivão - Herman Melville


Herman Melville (1819 - 1891) é considerado um dos grandes autores americanos do século XIX. Morto no esquecimento, Moby Dick e seu autor alcançaram a merecida fama no século XX, fama esta que ainda mantém o livro entre as grandes obras literárias já publicadas.

Mas não estou aqui para falar da grande Baleia Branca (ao menos não ainda). Bartleby, o escrivão, foi publicado em 1856 em um livro de contos chamado The Piazza Tales. O escritor argentino Jorge Luis Borges, que fez o prefácio deste livro, comenta que, neste conto, Melville define um gênero que Franz Kafka aprofundaria a partir de 1919, com suas fantasias que dissecam o comportamento e o sentimento humano.

O narrador deste conto é um advogado aposentado, que nos apresenta um episódio ocorrido com ele na época em que possuía um escritório na Wall Street. Chefe de dois escrivães e um aprendiz, e vendo-se cada vez mais sobrecarregado com suas atribuições, ele decide colocar um anúncio procurando por mais um escrevente.

Quem responde é Bartleby, um rapaz "palidamente delicado, lamentavelmente respeitável e irremediavelmente desamparado". Trabalhador voraz e de personalidade discreta, ele "escrevia em silêncio, apaticamente, mecanicamente", sendo, constantemente, o primeiro a chegar ao escritório e o ultimo a sair dele.

Até que em uma tarde, quando uma série de cópias precisam ser revistas com urgência, o advogado pede que Bartleby se junte aos outros escrivães para a revisão e , após uma longa espera, tem como resposta "prefiro não fazê-lo". Tal frase não foi dita de maneira rude, nem continha nenhum traço de agitação, e sim com uma calma tal que o advogado não consegue reagir.

E assim acontece sucessivamente. A cada nova tarefa pedida a ele, a mesma resposta, "prefiro não fazê-lo", dita de maneira tranquila, porém taxativa, e assim, aos poucos, ele deixa de fazer as coisas, e mesmo as tarefas mais básicas de sua função são abandonadas.

Bartleby desperta sentimentos opostos: ao mesmo tempo em que sua sua previsibilidade, sobriedade e afabilidade de comportamento inspiram "confiança e certo instinto protetor" e fazem dele uma "valiosa aquisição" ao escritório, as mesmas características, somadas à apatia ferrenha diante de tudo "gere súbitos acessos de ira contra ele". 

É um tanto agoniante. Como se justifica agir contra alguém que não fez nada contra você? Que escolhe (usando o verbo favorito de Bartleby, que prefere" não fazer nada? Demite? Sim, é uma boa, só que ele "prefere continuar onde está" e não vai sair porque "prefere ali a outro lugar" ou "prefiro não me mover".

Ao perceber que alguns dos maneirismos de Bartleby estão se infiltrando no restante do escritório, o advogado recorre a uma solução mais drástica. Se ele não sai, saí o escritório. E advinha quem o novo dono encontra lá? Sim, ele mesmo, Bartleby, o escrivão.

A história é bem curtinha. Coisa de setenta páginas, mas não dá pra deixar de se sentir dividido tal como o advogado em relação a Bartleby. 

A José Olympio está, mais uma vez, de parabéns pelo excelente trabalho feito com esta edição. 

18 de abr de 2017

As Mil e Uma Noites #Livro04


O quarto e ultimo domo de As Mil e Uma noites reuniu textos de oito fontes diferentes para completar a quantidade de noites do título, oferecendo um exemplo da pluralidade de fontes e da diversidade de vozes e tons que a voz de Sahrazad pode assumir.

Os eixos das histórias oferecidas continuam mais ou menos os mesmos dos oferecidos nos outros domos: ascensão social, manutenção do poder e domesticação do sexo feminino (apenas lembrando que grande parte das narrações são ambientadas nos primeiros séculos da história humana conhecida e em uma região dominada pelo forte patriarcado). O que chama atenção nestas histórias é a capacidade humana de se alternar entre a piedade extrema e a mais implacável perversidade.

Entre as histórias, destaco a de Alauddin e a Lâmpada Mágica, que ocupa 214 noites ao todo e que nos mostra uma versão bem diferente da que estamos acostumados a associar a esta história (Disney e sua capacidade de adaptação hahahaha).

Também destaco a série Conselho a Reis, que ocupam as noites entre 740 e 775. São 35 noites (quase o dobre em numero de páginas acho) em que as histórias vão para o segundo plano e se destacam conselhos para a boa governanças. Aqui se incluem desde máximas e sentenças propriamente ditas até pequenas fábulas que objetivam ensinar ao rei como reinar com justiça. Destaco essa parte por jamais ter lido algo tão chato em toda a minha vida. Quinze minutos de leitura me faziam precisar de duas horas ou mais de descanso e ainda assim não conseguia voltar à leitura. Acabou que acabei pulando mais de vinte páginas dessa parte e tive a ressaca literária mais perversa de que consigo me lembrar.

As histórias melhoraram depois, mas o dano causado por Conselho a Reis foi grande o bastante para me manter longe deste livro por quase dois meses. Terminei as histórias dando graças ao céus por não correr mais o risco de ter que passar por mais noites como aquelas.

Ler As  Mil e Uma Noites foi praticamente um objetivo de vida cumprido. hahahahahaah

10 de abr de 2017

Temporada Dos Ossos - Samantha Shannon


No último evento Fanáticos Rocco acabei ficando encarregada de apresentar este livro aos participantes, e não deu outra: fiquei doida de curiosidade para lê-lo. Vejamos e convenhamos, dizer que uma autora é a "próxima J. K. Rowling" atiça qualquer fã da diva maravilhosa.

O ano é 2059 de um mundo em que a clarividência não apenas existe como também é tratada como uma doença e exterminada como praga desde o século XIX. Paige Mahoney, a protagonista, é uma vidente (termo genérico para clarividentes) peculiar: seu dom é semelhante a um radar de mentes, sintonizando e reconhecendo diferentes tipos de mecanismos extra sensoriais. 

O mundo dela não é um lugar amistoso: os clarividentes são marginalizados e caçados pela Scion, a instituição do governo responsável pela caça e exterminação dos "desnaturais". Para eles, é viver mendigando e comercializando seus dons a preços esdrúxulos ou unir-se a um dos Sindicatos, grupos de videntes organizados liderados por um mime-lord (ou mine-rainha). Se a ultima frase deu a entender que a opção era ser um miserável independente ou um integrante de uma gangue, saiba que você e está totalmente certo. Paige está no segundo grupo. Ela é a Andarilha Onírica do grupo do Agregador Branco, uma das sete videntes mais poderosas do grupo. 

Certo dia, ao dirigir-se para a casa de seu pai, um acidente do metro a coloca na mira dos policiais da SCION, e mesmo seu treinamento em fuga e sobrevivência foi capaz de livrá-la da prisão. 

É então que ela é levada para a antiga cidade abandonada (e banida) de Oxford. Sheol I é uma comunidade prisional construída pelos Rephaites, seres poderosos que possuem uma ligação mais estreita com o Éter que os videntes achariam possível, e mantida pela Scion para manter os clarividentes longe dos naturais. É daí que vem o nome do livro: a Temporada dos Ossos é um acontecimento que ocorre a cada dez anos na cidadela dos naturais e que tem por objetivos capturar videntes e levá-los ao Sheol.

De fugitiva a prisioneira, Paige logo se dá conta do lugar em que está. Assim como logo se decide a fugir e voltar para o Sindicato, para o grupo que até então era como sua família. Ela quer fugir. Só precisa descobrir como.

O ponto alto da divulgação deste livro é um comentário comparando-a com J.K. Rowling. Achei meio presunçoso no inicio mas, a medida em que lia a história, tive que dar o braço a torcer. O estilo de narração e a progressão da história, de fato são bem parecidos e Samantha Shannon sabe muito bem como manter o desencadeamento da história sobre controle. As duas são escritoras bem precisas nesse sentido e sabem bem o que estão fazendo.

Este livro faz parte da Bone Season, mas, para falar a verdade, não entendi direito o motivo de haver continuação. Os acontecimentos iniciados tiveram conclusão e não consegui vislumbrar um objetivo que justificasse a existência de outros livros. Mesmo assim, se eles existirem, espero mesmo poder lê-los.

3 de abr de 2017

O Clube de Leitura de Jane Austen - Karen Joy Fowler


Apesar de sempre ouvir falar muito bem de suas obras, e de definitivamente ser uma das autoras mais respeitadas e cultuadas da história da literatura, nunca cheguei a concluir nenhum livro de Jane Austen (minhas três tentativas foram frustradas nos primeiros parágrafos e nunca mais me aventurei desde então).

De certa forma, foi essa incapacidade que me fez pedir O Clube de Leitura de Jane Austen. Talvez, pensei cá comigo, ver as histórias delas pela mentes dos que amam incondicionalmente sua obra, eu consiga uma melhor experiencia com a autora e talvez me fique mais uma vez motivada a lê-la.

Jocelyn, Bernadette, Sylvia, Allgra, Prudie e Grigg possuem suas vidas próprias no Central Valley, Califórnia. Mas, uma vez por mês, eles se reúnem na casa de alguém para discutir uma obra da escritora britânica Jane Austen.

Ao longo dos seis meses em que os encontros ocorrem, eles partilham mais do que a literatura, dividindo, mesmo com seus silêncios, suas perdas, conflitos, romances e amizades.

Narrado por uma sétima pessoa do clube, a narradora passeia pelo presente nos encontros do clube e em seus momentos anteriores, assim como nos revela um pouco do passado dos que receberão os outros integrantes do grupo. Em determinados momentos, foi confuso encontrar o que uma coisa tinha a ver com a outra, mas, ao mesmo tempo, fez sentido: o livro preferido de cada um tem a ver com o passado que o levou até ali.

Um dos personagens me chamou atenção. Na verdade, o que me chamou atenção foi como as mulheres tratavam Grigg, o único homem do grupo, 1)por ele ser homem, 2)por ele ser leitor assíduo de ficção científica, e 3) por ele nunca ter lido Jane Austen antes de ser convidado por Jocelyn (a organizadora do clube) para participar das reuniões. Em vários momentos me peguei enviando minha solidariedade ao pobre coitado entregue aos chacais como estava.

O livro trás ainda as sinopses de cada livro discutido e uma série de comentários sobre Jane Austen e suas obras feitos por várias pessoas ao longo do tempo.

De uma maneira geral, a leitura deste livro é fácil e cadenciada. Não há termos complicados e nem cenas fortes. Os amantes de Jane Austen certamente encontrariam várias referências aos livros abordados. A mim, que não li nenhum (ainda), todas elas passaram batidas. (Talvez por este motivo, tenha achado mais do que justo entregar meu exemplar à uma apaixonada por Austen. Sei lá, acho que vou me sentir mais confortável se souber que este clube de leitura está entre os seus).

30 de mar de 2017

Farmácia Literária - Ella Berthoud & Susan Elderkin


Que os livros possuem poder de cura, todos os leitores sabem. Para nós, os aficionados pela arte da palavra escrita, a literatura proporciona momentos de prazer, consolo, coragem e, por que não dizer, esperança.

Mas você sabia que os livros podem ajudar a resolver uma gama muito maior de males? E não apenas para a alma, mas para a mente e para o corpo também. É aí que entra a maravilhosa ciência da biblioterapia, a cura por meio dos livros.

Concebido pelas britânicas Ella Berthoud e Susan Elderkin, a Farmácia Literária é um compilado de livros receitados para males que vão de "abandonar o barco, desejo de" a "zumbindo no ouvido", selecionando, entre os mais de dois mil anos de produção literária conhecida, aqueles capazes de nos reafirmar a capacidade dos livros de distrair, repercutir e mudar a maneira como vemos o mundo.

Farmácia Literária foi mais um dos achados incríveis deste ano. Geralmente, livros falam sobre literatura possuem a tendência a ser denso o bastante para tornar a leitura monótona, mas não houve uma página sequer em que não tive a impressão de estar sentada junto a elas em uma sala aconchegante ouvindo-as falarem sobre seus livros favoritos. Eu era como uma criança pré-iniciada na arte de ler ouvindo atentamente minhas mestras.

A leitura é fácil, leve, engraçada e, ao mesmo tempo, muito informativa. Isso sem falar nas mais de 400 indicações incrivelmente bem explicadas. Como se não fosse o bastante, o livro trás ainda 38 listas de leitura e 30 "doenças relacionadas à leitura" (receio dizer que sofro de uma parte considerável destas).

Confesso que, no início, fiquei preocupada com tantas indicações. Como uma compradora compulsiva de livros em recuperação, receei cair na armadilha de entrar em lojas virtuais a todo momento, mas, por incrível que pareça, isso não aconteceu. A bem da verdade, eu mal tinha vontade de me dar tempo para jantar, quem dirá fazer uma pesquisa de preço (fora que, reconheci vários títulos da minha estante xD). Ao mesmo tempo, vários livros que já possuo se destacaram e reforçaram a vontade que tenho de lê-lo.

Existe uma curiosa relação deste livro com A Livraria Mágica de Paris. Monsieur Pardu, o protagonista do livro de Nina George, é um farmacêutico literário, indicando os melhores livros para curar os males que assolam seus clientes. Alguém, por favor, diga a ele que agora seu barco-livraria possui concorrência. xD

25 de mar de 2017

A Garota do Calendário (Junho) - Audrey Carlan


Junho. O sexto mês de Mia Saunders como acompanhante de luxo.

O cliente número seis é Warreen Shipley, um milionário de terceira idade que quer usar a beleza e a simpatia de Mia para amolecer políticos e homens de negócios para levar seus projetos filantrópicos adiante. Para Warren, tê-la como acompanhante é mostrar a esses homens que eles fazem parte do mesmo círculo e, por que, não tentar conquistar o apoio feminino para sua causa?

Mia é categórica: não vai rolar nenhum tipo de intimidade com Warren. Agora, quanto ao filho dele, Aaron Shipley, de trinta e cinco anos, senador mais jovem da Califórnia e um belo pedaço de mal caminho embalado em ternos sob medida...

O livro de Junho é um pouco mais grosso que os outros, 160 páginas, o que não diminuiu em nada sua facilidade de leitura, nem sua capacidade de prender o leitor. Ao contrário dos outros, no entanto, Junho mostra que nem todos os clientes (ou os que vivem ao redor deles) são um mar de carinho e camaradagem.

Mas Junho também mostra que, por mais que algumas coisas doam, por mais difíceis que algumas coisas sejam, Mia conquistou várias pessoas que realmente se importam com ela. Pessoas que atravessariam o país para cuidar dela, exatamente como uma família amorosa faria.

Para Mia, foram quatro os ensinamentos desta parte da jornada: Wes ainda era um assunto delicado, belas capas podem embalar conteúdos podres, os amigos são a família que você escolhe, e ela com certeza tinha os melhores amigos que alguém poderia ter.