19 de out de 2017

O Misterioso Bracelete de Arthur Pepper - Phaedra Patrick


Arthur Pepper é um serralheiro aposentado de sessenta e nove anos que perdeu, poucos meses atrás, a esposa com quem foi casado por quarenta anos. De hábitos modestos, ele se tornou ainda mais recluso e apegado aos hábitos.

Ao finalmente tomar coragem para arrumar os armários e se desfazer dos pertences da esposa, Arthur toma um susto ao encontrar um bracelete de ouro com com oito pingentes dourados, um luxo incongruente com a vida modesta e sem luxo que levavam.

Curioso com o objeto e com a recém descoberta de que sua esposa não lhe contava tudo, ele decide , em um impulso, investigar sua origem. As pistas nos pingentes levam Arthur a lugares que ele jamais imaginou que conheceria, e a uma Miriam que ele jamais pensou que existia.

Ao começar a ler O Misterioso Bracelete de Arthur Pepper, lembrei-me de outros dois livros cujos protagonistas também eram mais maduros (A Improvável Jornada de Harold Fry e A Livraria Mágica de Paris) e não hesitei em me jogar de cabeça nesta história. Não me arrependi de te-lo feito em nenhuma das vinte e quatro horas que demorei para ler este romance.

Arthur Pepper é um homem que se dedicou a vida inteira à família que de repente se vê a única mulher que amou, e não faz ideia do que fazer com ela sem sua companheira. Os filhos, crescidos e um tanto afastados, tão pouco sabem o que fazer. Um deles nem mesmo na Inglaterra mora. Encontrar o bracelete em uma caixinha de joias dentro de uma bota que há muito tempo não era usada incomoda Arthur. Ele nunca vira sua esposa usando aquele enfeite, nem nunca ouvira falar dele. Como podia haver coisas sobre Miriam que ele não sabia?

Num curioso e tímido despertar do fã de filmes de detetive que ele sempre fora, Arthur liga para um número gravado em um dos pingentes, e a pessoa do outro lado da linha o impele a continuar a busca pelas histórias dos outros pingentes. E, mesmo sob os protestos de sua própria mente acomodada, ele segue a caça ao passado.

O Misterioso Bracelete de Arthur Pepper é uma história fofa e nem de longe tão triste quando A Improvável Jornada de Harold Fry, mas igualmente forte. É sobre pensar sobre o passado, conhecer a si mesmo e abraçar o futuro com o coração leve e a mente limpa.

Livros com protagonistas mais velhos são subestimados (dá para perceber isso olhando na página do livro no Skoob), mas, sinceramente, eu os adoro, e quero ler muitos mais nesse estilo.

16 de out de 2017

As Perfeccionistas - Sara Shepard


Uma das minhas manias literárias mais estranhas é que volte e meia gosto de ler livros que abordam o bullying, talvez por ter passado por experiencias ruins no passado. As Perfeccionistas, da escritora americana Sara Shepard apareceu bem nesse momento.

Mackenzie, Ava, Caitlyn, Julie e Parker são garotas do Beacon Heights High que não possuem muita coisa em comum além da escola em que estudam mas que, por ocasião de um trabalho em grupo na aula de cinema avançado descobrem odiar o mesmo garoto: Nolan Hotchkiss, que parece ter o péssimo talento de ser o pesadelo de todos (e, especialmente, de todas) ao seu redor.

Durante a discussão do trabalho, a conversa ruma para a montagem de um assassinato hipotético. É tudo apenas desejo, é claro, quem não gostaria de se livrar de um bully? Ou de, no mínimo, dar o troco e humilhá-lo de alguma forma?

O problema é que, após uma festa regada a bebidas alcoólicas e drogas na casa de Nolan, ele aparece morto. Exatamente da maneira como as meninas haviam "planejado".

A corrente de fofocas e rumores do Beacon Heights High é ativada, e as meninas acabam como principais suspeitas. Agora, elas precisam se virar para encontrarem o verdadeiro assassino, caso contrário suas vidas perfeitas começarão a se estraçalhar ao redor delas.

Acho difícil comentar sobre As Perfeccionistas sem fazer um paralelo com O Canto dos Segredos (resenhado em Março deste ano, caso queiram procurar no histórico do blog). Um crime parecido (o assassinato de um bully), cujas suspeitas recaem sobre um grupo parecido de suspeitos (garotas que sofreram bullying e/ou que, escondem algum elemento para serem melhor aceitas dentro de um determinado grupo ou por uma determinada pessoa.

Em o Canto dos Segredos, conhecemos e acompanhamos a voz narrativa do detetive responsável pelo caso e o vemos explorar o mundo do Bullying, dos bullys e das vítimas como alguém de fora enquanto a narrativa como um todo alterna entre ele e as garotas.

N'As Perfeccionistas, a narrativa se restringe às meninas, seus pensamentos, ações e reações diante do que fizeram, não fizeram ou do que deixaram de fazer ou dizer, incluindo aí as aparições da polícia, que são um mero elemento que desencadeia novos acontecimentos para elas.

A narração de Sarah Shepard não me envolveu de todo. Apesar da competência em montar o enredo e em desencadear os acontecimentos, achei que ela poderia ter acabado com tudo e ter dado uma conclusão à história ao invés de deixar tantas coisas para as adolescentes lidarem. É claro que todas essas pontas soltas fazem sentido se As Perfeccionistas for o início de uma série, o problema é que não achei nada que dê a entender que haverá uma continuação.

10 de out de 2017

Minha Melodia - Camila Moreira


Antes de mais nada, você precisa saber que Minha Melodia é um Spin-off de O Amor Não Tem Leis/O Amor Não Tem Leis - O Julgamento Final. Digo isso para que fique claro que, por mais que você pegue algumas informações ao longo da leitura, muita coisa sobre os personagens vão passar batido se você for direto para este livro.

Abrir mão de Clara para deixá-la ser feliz com Alexandre fez  Derek Meyer mergulhar em um poço de autodestruição.

Sexo, drogas, álcool e mulheres em abundancia fizeram desse rockstar o alvo preferido da mídia, o que não ajudou em nada a colocar sua carreira no rumo certo.

De volta ao Brasil no que poderia ser os últimos suspiros de sua carreira, Derek acaba reencontrando uma pessoa que não consegue esquecer desde a tarde em que ele deveria ter ido ao casamento de Clara.

Na ocasião, ele estava bêbado (em coma alcoólico para ser mais exata), mas mesmo então o sorriso dela o acalmou e a voz melodiosa daquela desconhecida ficou em sua mente como alguém que, de alguma forma, entendia o que se passava em seu coração destroçado.

Dizem que é preciso um coração quebrado para reconhecer outro. Por certo, um coração destroçado pode se juntar a outro no processo de cura.

Ao ler este livro, fiquei pensando no que me lembrava de O Amor Não Tem Leis e me perguntando o que havia de errado. Apesar da história ter sido bem feita (embora tenha achado o casal formado um tanto estranho), em várias cenas senti que as coisas estavam aquém da capacidade da autora, e isso meio que me fez questionar se, depois de todo esse tempo, acabei super-valorizando a história de Clara e Alexandre.

Derek possui muitos momentos fofos, e em alguns trechos você consegue sentir na pele o que ele está passando. Em outros porém, fiquei me perguntando se aquilo era tudo o que teriam para oferecer.

Não me arrependi de ler Minha Melodia. Esperava mais, é verdade, mas imagino que nem sempre se consegue superar as expectativas dos leitores.

5 de out de 2017

Onze Leis a Cumprir na Hora de Seduzir - Sarah MacLean


Juliana Fiori, a meia irmã italiana de Gabriel e Nicholas St. John, é uma jovem impulsiva, que fala o que pensa e que não faz muita questão de ter a aprovação da sociedade em que foi jogada após a morte do pai.

Desde que desembarcou no país, sua natureza escandalosa e sua beleza estonteante (além da história de sua família) a colocam constantemente como assunto das fofocas, mesmo quando ela se esforça para controlar-se e/ou não se envolver em alguma situação que possa comprometer sua família.

Mas suas intensões de não participar de escândalos sempre para quando Juliana encontra Simon Pearson, o magnifico e desdenhoso duque de Leighton.

O poderoso nobre orgulha-se de sua origem e defende seu título com unhas e dentes sem se importar com quem atropela no caminho. Arrogante e perfeitamente chamado de "o duque do desdém", Simon viveu sua vida como se coisas como o amizade, amor e paixão fossem apenas para pessoas comuns,, e não para ele, um duque.

Para Simon, Juliana é um escândalo ambulante e, por isso mesmo, ela decide provar a ele que qualquer um (até mesmo o "duque do desdém") precisa se render às emoções de vez em quando.

O jogo é uma corda bamba, e Juliana sabe que, se perder, é ela quem sairá arruinada e machucada. Mas ela sabe também que Simon pode ser muito mais do que ele foi criado para ser.

De todos os livros da trilogia, Onze Leis a Cumprir na Hora de Seduzir é o que mais aparece como favorito entre o meu grupo de aficionadas por romances de época, e não é pra menos. Simon não faz o tipo cafajeste a que gostamos tanto, mas foi justamente essa troca de papeis (a protagonista feminina tentando "desvirtuar" o protagonista masculino) que deu destaque ao romance.

Adorei tudo! Personagens, construção da trama, desfecho, tudo perfeito! <3

2 de out de 2017

O Casal que Mora ao Lado - Shari Lapena


Os vizinhos de Anne e Marco os convidaram para um jantar de aniversário na casa ao lado. A única condição é que eles não levem Cora, a filha do casal, de apenas seis meses de idade.

Depois do cancelamento abrupto da babá que tomaria conta da criança, e de uma discussão um tanto acalorada, Anne cede ao acordo de Marco: eles deixariam a menina em casa, a vigiariam pela babá eletrônica e, a cada meia hora, um deles iria até o quarto de Cora para olhá-la.

Só que, ao voltarem para casa, a porta da frente está aberta e o berço de Cora está vazio.

Daí para frente é um jogo contra o tempo para escavar segredos e desvendar mentiras.

A narração alterna entre diferentes pontos de vistas, e aí se revesa entre eles. Anne, Marco, o detetive responsável pelo caso e demais personagens integrantes da trama tomam a frente de narração e, cada um a seu modo, adiciona fatos e linhas de raciocínio à trama e acrescenta algo ao caso como o todo.

A fã maníaca de CSI Las Vegas que ainda sobrevive em minha mente adorou cada página deste livro.

Uma de minhas amigas disse que tinha curiosidade de ler este livro, mas que não tinha coragem por medo de descobrir o que acontecia à criança. Se você for desse tipo, me permita um spoiler para te tranquilizar: ela volta a salvo para os braços da mãe. (É claro que sempre posso mentir em uma afirmação dessas)

29 de set de 2017

A Villa – Nora Roberts



Os vinhedos da família Giambelli são sinônimos de excelência nos quatro cantos do mundo.

O legado foi conquistado com garra, zelo, respeito e amor, e Sophia Giambelli, a terceira geração da família e atual alta executiva de marketing e relações públicas da empresa, segue essa fórmula a risca.

No centenário da vinícola Giambelli, La Signora, a matriarca da família, anuncia a chegada de grandes mudanças, todas girando em torno à fusão com a vinícola MacMillan.

Para Sophia, a maior mudança será ficar perto de Tyler MacMillan sem querer mata-lo. Grosseiro, turrão, alheio a tudo e a todos e extremamente dedicado à arte de plantar uvas e fabricar vinhos. Ainda assim, ela não apenas precisa ensinar Ty as particularidades do marketing como também aprender todos os cuidados do cultivo da uva.

Mesmo contrariados, Tyler e Sofia terão que trabalhar em conjunto. E apenas assim, unidos e coesos, Giambellis e MacMillans conseguirão passar pelos acontecimentos que marcarão o centenário dos vinhos Giambelli.

Nora Roberts não estava na minha lista de leitura, nem mesmo na minha biblioteca, mas de tanto ouvir falar bem de suas obras, fiquei curiosa. Aí calhou de encontrar A Villa em uma promoção nas Americanas e, como a obra foi muito bem recomendada por quem entende, acabei adicionando à minha (interminável) lista de leitura.

A escrita de Nora Roberts é fluida, suave e faz com que você se apaixone sem nem perceber e logo nas primeiras páginas. Personagens e enredos são bem construídos e tudo te faz querer continuar a leitura até o último ponto final.

Não sou apreciadora de vinhos, mas ficou bem nítido que ela fez uma boa pesquisa sobre o processo da coisa toda para ambientar bem a questão da empresa como o todo, conseguindo ir do chão de produção aos escritórios de ponta com muita naturalidade. 

Sobre ter me rendido às amigas que não param de falar sobre ela até o nível da exaustão (mentira, elas pararam um pouco), não só não me arrependo como já pedi outras indicações.

22 de set de 2017

Carbono Alterado - Richard Morgan


No século XXV, a humanidade se expandiu por toda a galáxia, sempre vigiados de perto pelas Organizações das Nações Unidas. Planetas foram colonizados e a raça humana, mais do que nunca, se diversificou em termos culturais. O avanço tecnológico foi tamanho, que o próprio conceito de vida foi alterado.

Nesse cenário, a consciência de uma pessoa pode ser armazenada em um cartucho na base do cérebro e baixada para um novo corpo quando o antigo para de funcionar. A morte, antes um momento definitivo na vida do ser humanos, passou a ser somente uma falha no sistema. Um contratempo que pode ser contornado com um novo revestimento para o cartucho.

O protagonista desse livro é Takeshi Kovacs, um ex-emissário da ONU, foi trazido a Terra depois de ser morto em seu planeta natal graças a um bilionário que deseja que sua morte seja melhor investigada. A polícia local havia encerrado seu caso como suicídio, mas ele não acredita. Por que alguém se mataria sabendo que seria reencapado horas mais tarde?

A investigação porém, colocará Kovacs dentro de um jogo de peixes grandes e antigos demais.

A bem da verdade, a sinopse do livro não me convenceu muito, mas acabei pedindo Carbono Alterado pela informação de que o livro seria adaptado pela Netflix. Bem, dizem que adaptações são sempre piores que o livro. Se for verdade, estarei passando longe dessa produção.

Apesar da ideia ser bem interessante, e de Richard Morgan saber montar uma história, o resultado ficou massante e repetitivo. Quis abandonar o livro antes da página cento e cinquenta e só o continuei por pura teimosia.

19 de set de 2017

Valiant - Laurann Dohner


Tammy sempre tentou estar preparada para todas as piores possibilidades da vida. Ela conseguiria enumerar mais de seis possíveis acidentes em seu ambiente de trabalho. Mas nunca em sua vida ela imaginou que, por causa de uma troca de mapas, ela invadiria o território de um Nova Espécie. Valiant é assustador. Até mesmo os Novas Espécies o temem, e não é para menos: dois metros de altura, cento e treze quilos e DNA que manifesta mais as características do felinas do que humanas.

Mas o homenzarrão se sentiu atraído pela pequena Tammy no instante em que ela apareceu no jardim de sua casa. O cheiro de morangos e mel que ela exalava o prendeu de uma tal maneira que tudo o que ele conseguiu pensar foi em torná-la sua.

Inicialmente, Tammy se assusta com a intensidade daquele homem, mas a atenção e o cuidado que Valiant dedicou a ela enquanto estavam no quarto da casa dele não apenas a surpreenderam, mas também a deixaram querendo por mais.

A leitura de Valiant é esperada desde que ele apareceu em Slade, e minhas expectativas se mostraram certas desde a página oito (e olha que a primeira fala efetiva dele foi lá pela página dez ou doze). Intenso, envolvente, nenhum pouco delicado, mas extremamente dedicado a cuidar do bem-estar dos que conquistam sua simpatia e, no caso de Tammy, seu amor.

Dos três livros (Fury, Slade e Valiant) este foi o que mais gostei de ler, e também foi o personagem que mais me conquistou. Tudo bem, Fury foi ótimo, mas Valiant (ah, o Valiant... <3)

Só sei que quero mais das Novas Espécies. <3

15 de set de 2017

Polícia - Jo Nesbo


A leitura de O Morcego no ano passado não foi uma experiencia que eu possa chamar de agradável. Não que a narrativa de Nesbo não seja boa (longe disso), mas me deixou com os nervos a flor da pele em vários momentos. 

E mesmo sabendo que Jo Nesbo é sinônimo de adrenalina e tensão, não apenas solicitei Polícia (um dos lançamentos de Julho da Record) como depois comprei mais dois livro dessa criatura que estavam em promoção na Amazon (incluindo Boneco de Neve, que foi adaptado para os cinemas). Sabem aquela leitora que gosta de se borrar de medo? Então, acho que eu sou um bom caso desse tipo. hahaha

Durante muitos anos, o inspetor de policia Harry Hole  usou seus insights brilhantes e sua dedicação nos principais casos de assassinato em Oslo. Mas não mais. Os anos na policia custaram muito a Harry. 

Nem quando uma série de assassinatos brutais ocorrem contra a força policial de Oslo. Policiais que, mesmo com todos os seus esforços, não conseguiram solucionar, cruelmente assassinados nos locais em que os crimes foram cometidos. E esses crimes são só o início da conversa.

Há momentos na vida em que fugir se torna tão doloroso quanto ficar. Ficar e encarar o abismo que está olhando de volta para você. Aquele abismo em que Harry sempre se joga ao entrar em uma investigação.

Em um frenesi de quatro dias entre ler desesperadamente e fechar o livro por não aguentar o estresse da caçada ao assassino de policiais e de tudo mais que cercava a trama, Jo Nesbo, mais uma vez, trouxe uma narrativa eletrizante que só o afirmou como excelente contador de histórias.

12 de set de 2017

Um Farol no Pampa - Leticia Wierzchowski


A Revolução Farroupilha terminou em 1845 com a vitória do Império. Derrotados pela guerra e pelo tempo, os farroupilhas voltaram para suas estancias abandonadas. As mulheres enclausuradas na estancia da Barra voltaram para suas respectivas casas com seus maridos e filhos que sobreviveram, e assim, tocaram a vida da maneira como puderam.

Em 1902 Antonio Gutierrez embarca da Corte rumo ao sul do Brasil. Em sua mala, o testamento do pai Matias, que lhe deixa a escritura de uma estancia no pampa e um punhado de cartas amareladas pelo tempo. Apesar de ter amado imensamente o pai, é somente com as cartas recebidas, e também com as que jamais foram enviadas, que ele, por fim, passa a conhecer as profundezas que Matias Gutierrez guardava na alma.

De volta ao pampa do pós-farroupilha, acompanhamos o crescimento do menino Matias dos sonhos de menino até a descoberta do amor na prima Inácia, e também vemos um caminho aparentemente já traçado esfarelar-se à sua frente ao mesmo tempo em que acontecimentos tão distantes dali levam o Império do Brasil rumo à Guerra do Paraguai.

Por ser filho de Mariana, a história do menino Matias se mescla ao destino das sete mulheres enclausuradas, e tal como no livro anterior, Manuela, mais uma vez por meio de seus diários, nos guia ao longo de todo livro, ora relembrando seu amor por Guiseppe, ora nos contando sobre seus parentes, sempre com a lucidez (as vezes falha) de quem passou a vida dedicando-se a esperar e a registrar.

Um Farol no Pampa é um romance que mescla o sutil e o épico, o amor e a tragédia, e o mistério que a vida esconde trás de cada decisão tomada.

Apesar da excelente narração (e nisso Leticia Wierzchowski foi, mais uma vez, magistral), e de já saber de antemão que não poderia ter muita coisa de diferente, terminei o livro com a sensação de ter tido somente mais da mesma coisa que vi em A Casa das Sete Mulheres: homens na guerra, mulheres isoladas em clausura esperando (seja seus maridos ou seus filhos), corações partidos e destinos que se desfazem. E já não sei se terei condições de me aventurar pelo terceiro (e ultimo) livro da saga.

7 de set de 2017

Um Homem Irresistível - Danielle Stelle


Maxine Willians é uma psiquiatra de renome especializada em adolescentes problemáticos e uma das profissionais mais procuradas no país (e no mundo) quando o assunto é o tratamento e o apoio psicológico a crianças e adolescentes vítimas de traumas coletivos. A rotina dela é rígida, entre os três filhos e a carreira, sobra pouco tempo para surpresas, mas, mesmo assim, ela não trocaria nada de sua vida por nada.

Ela já foi casada com Blake Willians, mas o casamento ruiu depois que ele ganhou uma fortuna com sua empresa de tecnologia. Maxine queria um marido e pai presentes para ela e seus filhos, Blake queria viajar mundo a fora comprando casas, fazendo e curtindo festas super-badaladas e vivendo aventuras de todos os tipos possíveis.

Os dois se dão bem e são bons amigos, a relação de Blake com os filhos é boa, mesmo passando somente poucas semanas do ano com eles, mas os dois nunca pensaram em voltar a se relacionar. Blake por que não queria se prender (fora isso a rotatividade de casos dele poderia muito bem ser considerada alta) e Maxine por ter pouco tempo para pensar no assunto.

Mas então Maxine conhece o médico Charles West: um homem charmoso, centrado, maduro e responsável que adora estar ao lado dela. Os dois se apaixonam e, mesmo com os filhos de Max virando os olhos para a ideia, Max o ama o bastante para aceitar se casar com ele.

É aí que a reviravolta acontece. Blake não só se vê no meio de um desastre natural numa área próxima a sua nova casa em Marrakesh como também coloca todos os seus recursos para ajudar os sobreviventes do desastre, em especial as crianças. Sem saber sequer por onde começar a ajudar, ele apela a Maxine, que, mesmo durante os preparos para o casamento e sob os protestos de Charles, parte para, pelo menos, avaliar a situação e ajudar Blake nos planos de ação.

Maxine vê a mudança em Blake. O amadurecimento que ela sempre esperou finalmente aconteceu, mas veio tarde demais. Ela se casará com Charles em breve.

Casará mesmo?

Um homem irresistível foi um caso clássico de "comprei pela capa" (homens de camisa social de manga longa em um conversível mexem comigo, o que posso fazer?), e também não me escapou o nome chamativo da escritora Danielle Steel (com mais de setenta títulos publicados no Brasil, ela definitivamente não é uma escritora que se possa ignorar).

A leitura foi agradável. Mais que agradável, foi o tipo de livro que eu busco quando quero curar um coração partido. Gostei dos personagens (talvez nem tanto de Charles) e achei interessante a maneira como ela construiu a narrativa.

Alias, a narrativa de Danielle Steel foi um show a parte. A maneira como ela condensa a timeline sem suprimir o que é importante é quase assustadora e ela é muito habilidosa em fazer mergulhos no interior dos personagens ao mesmo tempo em que a narrativa flui de um ponto de vista para outro (parece complicado, mas juro, é muito fácil de se acompanhar durante a leitura).

Ainda tenho um livro dela perdido entre os que estão esperando para serem lidos. Sei que vou a ele com o coração aberto certa de que me encantarei novamente.

4 de set de 2017

Scarlet – Marissa Mayer


A avó de Scarlet Benoit está desaparecida há mais de duas semanas e ninguém além dela parece se importar. A polícias abandonou as buscas alegando que fugiu por conta própria ou se matou (e os conhecidos não ajudaram em nada ao falar que ela era meio doida).

Scarlet sabe que as coisas não aconteceram bem assim e tem certeza de que a avó foi levada a força.

A vontade ferrenha de encontrar o único membro de sua família que restou se chocou na relutância em confiar em um estranho que, embora passe impressões contraditórias, parece ser a única pessoa que pode ter alguma informação a respeito do que aconteceu à avó.

Lobo é um lutador de rua recém-chegado à pequena cidade do interior da França. Grande, intimidados na maior parte do tempo e de aspecto selvagem, ele busca um recomeço, mas Scarlet o convence a ajuda-lo... Ou talvez ela pense que convenceu.

O caminho até Paris aproxima os dois na mesma medida em que os insere ainda mais nos segredos que envolvem o desaparecimento da vovó Benoit.

E o enigma se torna ainda mais intricado depois que os caminhos de Scarlet e Lobo se cruza com o de Cinder.

Enquanto isso, os planos da rainha lunar Levana se aproximam cada vez mais de um desfecho favorável a ela. E extremamente perigoso para os humanos.

1 de set de 2017

Em Águas Sombrias – Paula Hawkins


Uma mãe solteira aparece boiando no rio que corta a cidade. Uma adolescente encontrou o mesmo fim poucas semanas antes.

Não foram as primeiras a serem encontradas assim, a história da cidade está cheia dessas “afogadas”, mas suas mortes perturbaram as águas do rio sombrias e dragaram segredos a muito escondidos.

O Poço dos Afogados é uma parte do rio conhecida por atrair “mulheres encrenqueiras/indesejadas/infelizes” para suas águas. A fama mórbida do rio invade cada linha da narrativa. Esse assunto delicado, o suicídio, paira sobre tudo e todos deixando a sensação de que aquilo (a dor, a dúvida, os segredos) é insuportável. Um peso amarrado a seu corpo que não lhe permite respirar (e, de fato, quase abandonei a leitura antes da página 100).

Mas continuei, prossegui a leitura por achar que deveria avançar mais antes de abandonar a história. A leitura estava incomoda e amarga, mas ainda estava suportável, e acabei sendo recompensada com um alívio de peso quando segredos vieram à superfície por quem menos se esperava.

Fiquei satisfeita com o final (com os finais na verdade). Pessoas puderam seguir em frente, outras conseguiram se virar como puderam, e outras ainda terão que conviver para sempre com o fardo do que fizeram.

O certo que não lerei nada dessa autora tão cedo. (Ou talvez depois de reunir muita coragem.)

21 de ago de 2017

O Conto da Aia – Margaret Atwood


Quando sucessivas reportagens celebram o sucesso de The Handmaids Tale, uma atriz do calibre de Emma Watson (a bruxa mais inteligente de sua idade) espalha o livro pelas ruas de cidades por onde passa e a sua editora parceira (maravilhosa) anuncia que republicará o livro, não há muito o que questionar: tudo que você sabe é que precisa ler O Conto de Aia.

Acho que não fui a única a pensar assim: só consigo imaginar que o atraso de quase um mês entre o pedido e a chegada do livro foi resultado de um pedido em massa por parte dos parceiros.

Publicado pela primeira vez em 1985, o Conto de Aia, da canadense Margaret Atwood, ressurgiu no cenário mundial em um momento em que as liberdades individuais (em especial, a liberdade feminina) se choca, cada vez mais aberta e violentamente, contra um Governo que coage e pune com violência, e que ainda usa dos discursos religiosos ou de ódio para se legitimar.

Em algum ponto do século XXI, o mundo foi devastado pela radiação e pelos efeitos de sucessivas guerras biológicas e químicas antigas e/ou em andamento. A maioria das mulheres no que antes foi conhecido como os Estados Unidos da América se tornaram estéreis, e por isso há mulheres como Offred.

Uma propriedade do Estado, cuidada e mantida saldável com o único propósito de procriar. Claro, ela pode sair de casa (para fazer compras uma vez por dia, sempre acompanhada de outra Aia), e também é livre para rezar (trancada no quarto em que ocupa na casa do Comandante que ganhou o direito de tentar engravidá-la). 

Caso não cumpra com o que é esperado de Aia (dar filhos às Esposas), Offred se tornará uma Não mulher e, junto a outras inférteis, viúvas, adulteras, feministas e homossexuais, será condenada a trabalhos forçados nos lugares em que a radiação reduz sua expectativa de vida a 3 ou 4 anos (ou mesmo menos). Ou então ela pode ser fuzilada ou enforcada e ter seu corpo exibido no Muro, para servir de exemplo à outras Aias.

Mas, contrariando o Estado que a controla, Offred também se recorda de sua vida anterior. Recorda-se de sua filha pequena e de seu marido, perdidos a tempo o bastante para se perder a contagem do tempo.

Sua transgressão continua em sua narrativa, e a própria narrativa se torna seu instrumento de transgressão e de libertação. Para nós, seus interlocutores que nem ela mesmo acredita, ou espera que terá, Offred se permite confiar o bastante para contar um pouco sobre o tempo em que passou com o Comandante e sua Esposa, sobre sua sociedade e sobre àquelas mulheres que foram reduzidas a úteros implorando para serem preenchidos.

A narrativa construída por Margarert é surpreendente (não encontrei outra palavra melhor aplicável). É incomoda e amarga e não só pelo ambiente em que tudo se passa, mas pelo desconforto em saber que todo aquele absurdo teocrático que é a República de Gilead é perfeitamente possível de sair dos papeis de Atwood (embora fique me perguntando se formar um mundo de caos a partir das doenças de nosso tempo não seja uma prerrogativa da distopia... Assunto para outra ocasião talvez)

17 de ago de 2017

Um Tom Mais Escuro de Magia – V. E. Schwab


Há muito tempo a magia transitava livremente entre os mundos. Mas ela saiu de controle e passou a devorar a tudo e a todos.

Por precaução as portas entre os mundos foram fechadas, e o passar dos séculos fez com que as diferenças entre eles se atenuassem – até restar pouca semelhança entre elas: o “mundo cinza” é sujo, enfadonho e sem magia; o “mundo branco” é pálido, desbotado e a magia é arisca e selvagem, sendo controlada a força pelos poucos com poder o bastante para fazê-la emergir do subsolo profundo. No “mundo vermelho”, o respeito e a reverencia pela vida e pela magia faz dela uma força constante e (quase sempre) pacífica. O “mundo negro” é onde, segundo as histórias contadas para as crianças, o caos e a destruição imperam.

Em comum, esses quatro mundos possuem uma cidade: Londres (o livro descreve essa intercessão como planos diferentes de um mesmo ponto, um encima do outro, e não entrepostos).

Oficialmente, Kell é o mensageiro da família real da Londres Vermelha. Mas por baixo dos panos, e sem ter a real necessidade ou motivo, ele é um contrabandista que atende pessoas dispostas a pagar por vislumbres mínimos de algo que nunca terão de verdade.

Não é um hobby muito recomendável, e ele sabe que transportar um item, por menor que seja ele, de uma Londres a outra pode desencadear consequências catastróficas.

Consequências que o encontraram antes mesmo que Kell tomasse consciência do que havia feito.

Ao longo da narrativa, existe um ponto da história que a transforma de enfadonha para interessante (ou mesmo intrigante). Embora não consiga dizer exatamente em que parte isso aconteceu, a diferença foi o bastante para que eu conseguisse ler quase duzentas e cinquenta páginas em poucas horas (o que é bastante coisa se considerarmos que comecei e terminei este livro em dia de semana).

Acabou que fiquei animada e ansiosa pela continuação, Um Encontro de Sombras (que será lançado na Bienal deste ano).

3 de ago de 2017

A Casa das Sete Mulheres - Leticia Wierzchowski


Lá pras bandas de 2003 a Rede Globo produziu uma minissérie que ficou marcada na minha memória pela quantidade de atores bonitos reunidos em uma mesma produção (recorde esse que não foi superado até hoje).

Anos depois descobri que A Casa das Sete Mulheres foi uma adaptação de um livro escrito pela escritora gaúcha Leticia Wierzchowski e, mais recentemente, descobri que a história não apenas era um livro como fazia parte de uma trilogia.

Em comemoração ao lançamento de "Travessia", livro que conclui a série iniciada em 2002, a Bertrand Brasil relançou os dois primeiros livros em um novo projeto gráfico.

Quem se lembra da série com certeza se lembra do enredo (difícil esquecer uma boa produção, e A Casa das Sete Mulheres foi excelente), mas, para quem não se lembra (ou não é dessa época),a história se passa durante a Revolução Farroupilha, revolução de caráter republicano ocorrida no sul do país entre os anos de 1835 e 1845. De um lado, estancieiros sulistas descontentes com o preço dos altos impostos cobrados pelo Império Brasileiro e também pelo baixo preço do charque e do couro, principais produtos da região.

Quando a guerra se fez iminente, o general Bento Gonçalves da Silva isolou as mulheres de sua família mais as crianças pequenas em uma estância afastadas das áreas de conflito com o propósito de protege-las. 

Era para ser por um curto período de tempo, mas a guerra começou a se arrastar. Um ano virou três. Três anos tornaram-se cinco, e de cinco, para dez. E nesse meio tempo, as sete mulheres confinadas naquela estância aprenderam a conviver com a solidão e o silêncio da guerra e a esperar... Sempre a esperar.

A narração é feita em duas frentes: uma que acompanha episódios pontuais de todos os personagens envolvidos na estancia e na guerra. Seus pensamentos, medos e desdobramentos são ditos em terceira pessoa, como uma câmera acompanhando a pessoa. A outra frente são os "Cadernos de Manuela" (que na série foi interpretada por Camila Morgado) e, como o próprio nome sugere, são partes de seu diário, escritos durante o confinamento no campo ou mesmo muitas décadas depois dele.

Este não foi um livro fácil de se ler, e também muito difícil de se largar. O conhecimento prévio da história (pelo que aprendemos na escola ou mesmo pelas reminiscencias da série) já adiantava que não era uma história com final feliz (e histórias de amores partidos me cortam o coração até reduzi-lo a cacos). 

Ao mesmo tempo, a narração de Leticia Wierzchowski é precisa e não te deixa largar o livro. Mesmo sabendo que esta é uma história de espera, me senti compelida a esperar e sofrer junto com aquelas mulheres, a sentir suas raras alegrias e a suportar o fardo das tristezas. No fim, além de tudo, é preciso também dividir o gosto amargo da derrota, e reunir os cacos para viver sem aqueles que pereceram ao longo da guerra.

Terminei este livro temendo pelo próximo, o Um Farol no Pampa deve chagar a minha casa por estes dias. Sei que vou lê-lo da mesma maneira que li A Casa das Sete Mulheres: agoniada pela espera e pela guerra em curso, e também envolvida em uma narração impecável e amarga.

31 de jul de 2017

Slade - Laurann Dohner


Não estive muito bem esse semana, Minha cabeça me pregou uma peça e tudo foi aumentado à décima potência por causa do meu ciclo. Abandonei um livro promissor antes mesmo da página sessenta por estar no meio de um descontrole emocional.

Meu remédio auto prescrito para esses casos é um erótico (gênero que, por algum motivo que desconheço, tem aparecido pouco pela minha lista de leitura). No caso, o que estava à mão no momento era Slade, o segundo volume da séria Novas Espécias, da Laurann Dohner.

A doutora Trisha Norbit é o que se pode chamar de "menina prodígio": entrou na faculdade de medicina aos quatorze anos e aos vinte e oito já era uma respeitada e competente plantonista do Hospital Mercy.

Em um dos seus turnos, ela ficou responsável por cuidar de um paciente resgatado dos laboratórios das Indústrias Mercile. Não há informações sobre ele, a não ser que ele é um hibrido entre homem e animal (raça canino para ser mais exata) e que é chamado de 215.

Durante uma rápida visita ao quarto do paciente antes de finalmente ir pra casa, 215 acorda repentinamente e Trisha se vê como alvo dos jogos de sedução de um poderoso homem de quase um metro e oitenta e olhos azuis de predador. Apesar do perigo iminente, Trisha e 215 acabam presos pelo desejo mútuo, mas o alarme soa e uma equipe de segurança entra no quarto hospitalar para resgatá-la.

Pouco tempo depois, agora trabalhando em Homeland (o lar dos que são conhecidos como Novas Espécies), Trisha reconhece 215, só que Slade não a reconhece. Para piorar, os dois vivem trocando farpas verbais e se insultando mutuamente em um quase talento de tirar um ao outro do estado normal de temperamento.

A relação dos dois fica mais intensa ainda quando, durante uma viagem até o futuro novo lar dos Novas Espécies, o carro de Trisha e Slade é atacado por integrantes de um grupo de ódio contra os Novas Espécies e os dois se envolvem em um grave acidente de carro e acabam se tornando caça.

Enquanto lutam para escapar dos perseguidores, o desejo que os envolveu no hospital ressurge e, enfim, os vencem. E as consequências desse envolvimento mudarão a vida das Novas Espécies para sempre.

Devorei Slade em pouco mais que vinte e quatro horas (infelizmente, tive que parar para dormir e trabalhar). O livro cumpriu seu objetivo e meu humor voltou ao normal lá pelas páginas 230. A história realmente me envolveu e me fez esquecer (ou para de pensar) o que me fez ficar para baixo. Nisso ela tem todo o mérito, mas em outros quesitos, tive algumas ressalvas.

Slade é legal e tal (um tanto babaca, é verdade), mas não conseguiu me conquistar. Achei incrível como todos os outros Novas Espécies machos me envolveram (e se sobressaíram na história) mais do que o protagonista (que deveria ser o macho alfa da história e roubar as atenções da coisa toda). Fiquei meio decepcionada com isso e me peguei pensando no quão loucamente quero ler Valiant (o hibrido entre humano e leão que roubou a cena enquanto Slade fazia o papel de babaca-alfa da cena).

27 de jul de 2017

Dez Contos Escolhidos de Eça de Queirós


Como já devo ter comentado em uma ou outra resenha, quando fico de decidir se um autor está ou não dentro do meu gosto literário, sempre prezo pela leitura de uma segunda obra. Acho justo dar ao autor uma segunda chance, até porque o processo de escrita é mutável e altamente influenciável.

No caso de Eça de Queirós (1845 - 1900), li O Primo Basílio (1878) em agosto do ano passado, e a minha segunda leitura seria Os Maias (obra de 1888 que é considerada sua obra máxima), mas não pensei duas vezes em pedir esse livro de contos que a editora José Olympio disponibilizou aos parceiros. (José Olympio maravilhosa! <3)

Organizado pelo escritor e professor da Escola de Comunicação da UFRJ, essa edição (lindíssima por sinal) trás 9 contos publicados 1874 e 1898 além de um publicado após a morte do autor.

Entre contos já consagrados e outros menos conhecidos pelo público brasileiro, esta antologia condensa muito bem as características que fizeram Eça de Queiros ser considerado o grande nome do romance português moderno: a ironia sutil, o uso preciso das palavras e a narrativa que se desenvolve como um ser humano contado aos olhos do outro.

Tive alguma dificuldade no decorrer dos contos: por algum motivo, algumas coisas pareciam não se encaixar com o que eu me lembrava da narrativa de O Primo Basílio, como se estivesse lendo algo de outro autor muito diferente. Esses momentos foram maçantes, e me fez querer desistir da leitura algumas vezes, mas então havia algum reconhecimento e aí a leitura seguia.

De um modo geral, e apesar das coisas estranhas que me deram um nó na cabeça, o saldo desse livro é positivo. Eça de Queiros pode não ter conquistado um lugar alto no meu pódio, mas colocou-se entre os que me manterei lendo sempre que a oportunidade surgir.

20 de jul de 2017

O Estranho - Kristen Ashley


Gwendolyn Kidd conheceu o homem dos seus sonhos entre um drink Cosmopolitan e outro durante uma noite de apoio moral à uma amiga bartender. Sem rodeios, ela o levou para sua casa e se entregou àquele estranho sedutor.

Acordar sozinha na manhã seguinte a deixou de coração partido, mas ele voltou para ela na calada da noite. E é assim a um ano e meio: o estranho chega na calada da noite e parte antes do amanhecer. os dois não trocam palavras (na verdade, eles sequer chegaram a trocar nomes), mas, desde a primeira noite, Gwen mal consegue suportar as noites em que ele não a visita.

Quando sua irmã mais nova se envolve, mais uma vez, com as pessoas erradas, Gwen decide procurar o ex-namorado dela e, quem sabe, conseguir ajudá-la, mas tudo o que consegue é se colocar na mira de pessoas ainda mais erradas e definitivamente muito mais perigosas.

Mas ela também consegue fazer com que, pela primeira vez em um ano e meio, ela veja (e fale!) com o estranho à luz do dia.

Hawk precisará sair das sombras que o cercam para proteger Gwen. Sair da confortável zona de conforto que é o papel de amante, e até passar por cima de seus próprios traumas, para ajudá-la. Mas talvez ela não goste muito de sua versão protetora...

O estranho possui 575 páginas e, confesso, passei boa parte delas rindo quase descontroladamente. Gwendolyn é uma mulher de 33 anos que poderia muito bem se passar por adolescente sem nunca poder ser chamada de imatura. Cabeça de vento (sim) com os hormônios a mil (com certeza), e chamariz para problemas (e para homens gostosos também).

Um adicional que faço é que anos atrás, comecei a ler um livro em que o protagonista masculino era tão exagerado em relação à proteção da protagonista feminina que cheguei a abandonar a história (e por pouco não joguei o exemplar na parede). Hawk tem seus momentos de exagero, não negarei este fato, mas a questão é que a autora soube trabalhar esse aspecto sem deixar que o bizarro saísse do controle, e ainda fez a coisa toda ser absurdamente hilária.

A trama foi bem construída, assim como os personagens, e a narração manteve a qualidade ao longo de todo o livro. Kristen Ashley com certeza é uma autora que prestarei atenção daqui pra frente.

13 de jul de 2017

A Fera em Mim - Serena Valentino


Quando a Universo dos livros anunciou que traria histórias dos sucessos da Diney fiquei bem animada (até porque a empreitada incluiria meu amadíssimo A Bela e a Fera), mas depois de Frozen - Um Coração Congelado, minha empolgação diminuiu bastante (o livro não acrescentou pouco ou praticamente nada à história).

A bem da verdade, estava com receio de sofrer a mesma coisa e acabar tendo nada além do mais do mesmo de uma história que amo tanto, mas senti que já estava na hora de ler este livro.

E fiquei muito, mas muito contente mesmo de ver os detalhes que Serena Valentino acrescentou à história, e mais ainda em ver que ela fez isso sem interferir em praticamente nada da história como a conhecemos.

Tomando por base o filme da Disney de 1991 (amor eterno e incondicional a essa versão <3) A Fera em Mim começa na primeira noite de Bela como Prisioneira da Fera.

No jardim, tentando entender o motivo de Bela ter se oferecido como prisioneira no lugar de seu pai, a Fera acaba se perdendo é confrontado por três fadas que atormentam sua vida desde que a feiticeira jogou a maldição sobre ele e sobre o castelo. Logo em seguida, já irado pelos desaforos, ele ainda precisa ouvir sua "convidada" chamando-o de monstro (embora até ele admitisse que havia alguma verdade nisso).

Recluso em seu aposento na Ala Oeste, a Fera se deixa levar pelas lembranças do passado, da época em que era um príncipe humano, belo e feliz com a vida que tinha.

A Fera em Mim merece ser lido merece ser lido não apenas por ser A Bela e a Fera, mas por nos permitir olhar tudo pelos olhos do príncipe (e também por ter algumas referencias muito maneiras sobre os outros contos de fadas). Com o filme (com os filmes aliás), é bem fácil perceber o sofrimento pelo qual ele teve que passar até encontrar o amor de Bela, mas, de alguma maneira, esse livro conseguiu construir a personalidade de Adam de maneira bem mais precisa.

10 de jul de 2017

A Ordem dos Clarividentes - Samantha Shannon


(A Ordem dos Clarividentes é continuação de Temporada dos Ossos).

Com muito custo, Paige escapou escapou da colônia penal Sheol I. Mas o preço foi alto e o fim do cativeiro não significou o fim dos problemas: muitos os sobreviventes estão desaparecidos e ela se tornou a pessoa mais procurada de Londres.

Enquanto Scion caça a Andarilha Onírica, os líderes do Sindicato (grupo "organizado" dos videntes) perdem sua liderança semanas antes do governo colocar em teste um novo tipo de sensor identificador de videntes. O Sublord e seu séquito são encontrados mortos em seu covil. A nova liderança sairá de um duelo entre todos os candidatos que se dispuserem a arriscar suas vidas.

Jaxon Hall e seus Sete Selos se preparam para assumir o palco. Mas uma Mariposa se arriscará para, enfim, revelar os segredos que dividem a comunidade clarividente a quase dois séculos.

Segredos que virão à tona quando os Rephaites saírem das sombras.

Na resenha de Temporada dos Ossos comentei que não sabia a razão de o livro ter continuação. A verdade é que eu estava completamente enganada. A podridão de Sheol não estava confinada ao seu campo de concentração de videntes, a corrupção do Sindicato estava muito mais enraizada do que eu poderia ter imaginado e havia muito mais coisa rolando do que sonhava minha vã filosofia.

Comparado ao livro anterior, A ordem dos Clarividentes é mais tensa. O jogo aumentou demais em seus desdobramentos e o destino dos videntes ficam a cada momento mais incerto.

Samantha Shannon, mais uma vez, mostrou que consegue manter a narração e a progressão da história em alto nível (e sim, a "comparação" com a diva J. K. Rowling se mantém nesses quesitos). O suspense as ondas de adrenalina que pairam sobre os personagens são facilmente sentidas pelos leitores e há muitas passagens que merecem toda a nossa atenção.

6 de jul de 2017

Um Romance Perigoso - Flávio Carneiro


Conheci Flávio Carneiro em um evento promovido pelo SESC em 2015 e tive a felicidade de ganhar o livro O Livro Roubado. Foi uma das melhores descobertas do ano e quase surtei ao ver um novo romance dele disponível para os parceiros da editora.

André se tornou detetive particular por acaso, mas não por acaso que ele continuou como tal. Ele e  o Gordo, seu "ajudante" e dono de um sebo Lapa, são leitores vorazes e aficionados por romances policiais, e suas bagagens literárias são suas maiores vantagens na hora investigação.

A noticia da primeira página do jornal é chocante: um famoso escritor de autoajuda foi encontrado morto em seu quarto de hotel após uma sessão de autógrafos. De acordo com as informações divulgadas pela policia, o escritor fora morto por uma injeção de estricnina no pescoço. Em uma parede, escrito em tinta vermelho sangue, os dizeres "X-9" e, próximo ao corpo, uma edição usada de A Irmãzinha, do escritor americano Raymond Chandler.

Menos de uma semana depois, outro assassinato: outro escritor de autoajuda, dessa vez em sua mansão, durante um jantar oferecido a mais de duzentos convidados, é encontrado morto por estricnina. Além da mesma edição de A Irmãzinha, um bilhete datilografado em tinta vermelha e encontrado no paletó da vitima com os dizeres "A CEIA".

A escrita de Flávio é maravilhosa, dinâmica, envolvente, e não deixa o leitor se perder nas divagações dos detetives (o que, para mim, sempre foi um ponto contra nos grandes nomes do gênero). André e Gordo quebram os pontos ais tensos da trama com as perambulações gastronômicas pelo Rio de Janeiro sem nunca deixar de desenvolver a linha investigativa da trama. E ele é muito bom na construções das referencias também (a que mais me impactou foi uma que, de um lado resgatava o tema do livro anterior, de outro abrangia o próprio livro em si).

Um Romance Perigoso é uma grande homenagem ao mundo romance policial. E, se você for do tipo que não faz a minima ideia do que ler sobre o gênero, André, Gordo e os contatos que os ajudam ao longo da investigação lhe darão várias indicações de por onde começar (eu, por exemplo, anotei todos e irei procurá-los!).

3 de jul de 2017

Um Beijo Inesquecível - Julia Quinn


Hyacint Bridgerton, a oitava e ultima rebenta de Violet e Edmund Bridgerton, é uma moça única, e ninguém com um mínimo de conhecimento sobre ela discordaria disso. Dona de uma inteligência quase cruel e de uma franqueza desconcertante, poucos são aqueles que conseguem lhe fazer companhia. 

E é justamente esse o problema: Hyacinth já está em sua quarta temporada e nenhum dos (poucos) pretendentes que a cortejara até aquele momento impressionou a caçula dos Bridgertons.

Durante um recital promovido pelos Smythe-Smith, ela conhece Gareth St. Clair, neto de Lady Danbury (uma das coroas mais legais de toda a série). Belo, atraente e, o mais incrível, capaz de manter uma conversa de verdade com Hyacinth (conseguindo, inclusive, a proeza de deixá-la momentaneamente sem fala e sentindo um frio na barriga de vez em quando).

Hyacinth está decidida a não se deixar levar por St. Clair. Ela sabe que a reputação dele é duvidosa e sabe também que possui uma reputação a zelar, mas o surgimento de um diário da avó italiana de St. Clair, e seus conhecimentos sobre o idioma, irá colocá-la diante de uma intrigante caçada.

Talvez nem ela nem Gareth estivessem procurando por todas as questões levantadas pelo diário da avó St. Clair, mas talvez eles encontrem todas as respostas que precisassem.

É estranho pensar que anos já se passaram desde o início da série (Anthony está "levemente grisalho") e que Hyacint e Greory estão em seus 22 e 24 anos respectivamente. E tudo o que pensamentos sobre ela ao longo dos livros anteriores estava certo afinal: é quase impossível controlar o gênio de Hyacint e ela sabe ser muito divertida quando quer.

Uma ressalva que encontrei neste livro foram os cortes de cena e a maneira como a autora mudava de um ponto de vista narrativo a outro: cada cena tinha uma introdução (uma linha que fosse) indicando, no mínimo, "quem", "onde" e "quando" (às vezes "o que" também). (Exemplo: "Apenas uma hora mais tarde..." ou "Ainda no beco, Gareth olha.."). Ficou estranho e sem sentido, e Julia Quinn já se mostrou competente o bastante para fazer uma ambientação rápida como essa de maneira integrada ao texto. 

29 de jun de 2017

A Senhora de Wildfell Hall - Anne Brontë


As icônicas irmãs Brontë (Charlotte, Anne e Emily) foram escritoras do século XVIII que desafiaram convenções e entraram para a história da literatura inglesa ao entregar ao mundo histórias como O Morro dos Ventos Uivantes (Emily), Jane Ayre (Charlotte) e Agnes Grey (Anne).

A mais nova das Brontë, Anne, também escreveu The Tenant of Wildfell Hall, em 1848, que a Editora Record traduziu como A Senhora de Wildfell Hall nessa linda edição de texto integral lançada em maio.

A estrutura do texto chama atenção: iniciada como uma carta sem data do narrador para seu amigo Halford, ele se predispõem a contar uma história "detalhada e interessante dos acontecimentos mais impressionados de sua juventude". Na carta, o narrador comenta que, na época em que o amigo lhe contara sua história, ele ficara magoado por ele não tinha nada para lhe contar em retribuição. Mas que agora, era, segundo ele, o momento propício para relembrar o passado.

E assim retornamos ao outono de 1827: Gilbert Markan é um fazendeiro de um condado não especificado que se manteve no ofício do pai a seu pedido, não desejado nada para o filho além da segurança que a propriedade da família pudesse lhe proporcionar. A cidade é pequena (ao ponto que somente três ou quatro famílias merecem algum destaque), todos se conhecem a anos e a fofoca corre solta (como em toda cidade de interior da época imagino).

As velhas fofocas recorrentes são esquecidas quando uma estranha chega à cidade e ocupa Wildfell Hall, a antiga casa do maior proprietários de terra da vizinhança, abandonada a mais de quinze anos, quando seu atual dono mudou-se para uma residencia mais moderna e mais próxima da cadela local.

A nova moradora, uma jovem viúva de 20 ou 25 anos, mudou-se com o filho de cinco anos e parecia mais que determinada em manter-se o mais socialmente afastada que fosse possível (o que era bem pouco para seu gosto graças às vizinhas que usavam de qualquer artifício para aproximar-se dela e lhe arrancar informações sobre seu passado).

De maneira suave, e sem qualquer segunda ou terceira intenção, Gilbert e Sra. Graham, mais tarde, Helen, passam a dividir uma amizade tenra, mas que ela, ao perceber que ele alimentava sentimentos além da amizade, advertiu-o que nada além de amizade poderia acontecer entre eles.

Depois de alguns capítulos dolorosos, o segredo de Helen nos é revelado, por meio de seu diário pessoal, que ela entrega a Gilbert para que ele pudesse entender seus motivos. Achei incrível como ela conseguiu mudar os narradores sem mudar a estrutura da narração e nem o tom da fala. tanto um quanto o outro, expuseram seus sentimentos e segredos no papel de forma tão similar que não me admirou ter nascido um sentimento mais forte que a amizade.

A leitura não é do tipo que se pode fazer apressadamente (aliás, se não me falha a memória, poucos entre os escritos no século XVII possuem essa característica), Anne te convida a uma leitura calma e reflexiva dos personagens e da sociedade que os cerca. Aliás, A Senhora de Wildfell Hall, assim como o livro anterior da autora, Agnes Grey, se mostrou ser uma crítica escancarada aos costumes da época, em especial à condição da mulher.

22 de jun de 2017

Cinder - Marissa Meyer


Cinder é uma garota de dezesseis anos que tem algumas particularidades bem singulares: primeira, ela é a melhor mecânica da região (dizem que de toda Nova Pequim), segunda (e, na verdade, razão da primeira particularidade), ela é um ciborg, uma humana "concertada" com partes mecânicas (no caso dela, um pouco mais de 36 por cento do corpo, incluindo aí uma painel de controle capaz de baixar, por exemplo, esquemas mecânicos de toda e qualquer máquina que possa precisar de reparos.

Adotada por um casal quando ainda era muito criança, Cinder foi transformada em capacho doméstico após seu pai adotivo morrer. Sob a tutela de sua madrasta e de suas duas filhas (uma odiosa, outra não), ela é obrigada a trabalhar em um estande de mecânica para sustentar, sozinha, toda a família.

Até que em uma fatídica tarde sua alteza imperial, o príncipe Kai, a procura na oficina e pede que conserte seu androide doméstico o mais rápido possível, de preferencia antes do baile anual. Até aí, beleza, mas (só para desandar um pouquinho), a irmã "não-má" é contaminada pela letumose, uma epidemia de nível mundial, altamente contagiosa, sem cura e que mata dolorosamente rápido. E só para piorar mais um pouquinho, sua madrasta a entrega como voluntária para um programa de pesquisa de doenças que usa ciborgs como cobaias. E ninguém nunca voltou de lá para contar a história.

A história se desenrola como quem não quer nada. Apenas uma garota de dezesseis anos sustentando a casa em que convive com pessoas detestáveis e falando (e pensando) excessivamente demais no príncipe imperial. Mas ok, né, ela só tem dezesseis anos.

Aí a história começa a se formar e você percebe que não é só uma garota tentando viver sua vida comum. Em resumo: a leitura é boa, e a história é tranquila a ponto de você não ver as páginas passando. Não é exatamente uma maravilha, embora tenha melhorado bastante quando o príncipe ficou em um plano diferente que o primeiro (talvez em algum lugar entre o primeiro e segundo plano) mas, ainda assim, me deixou curiosa relação ao próximo livro (que já pedi emprestado por sinal).

19 de jun de 2017

A Filha do Sangue - Anne Bishop


O mundo de A filha do Sangue é diferente de tudo o que já li até agora. 

Nesse mundo, a magia é proveniente de Joias de Poder e a hierarquia é matriarcal. Àqueles que são atribuídas Joias, diz-se que pertence aos Sangue. Os machos, que, assim como as mulheres, podem, ou não, possuir uma Joia tem a função de proteger e servir às Rainhas, regentes do Sangue, coração da terra e centro moral do povo de seu território.

Houve um tempo em que o conceito de servir à sua Rainha era a gloria e honra de um macho. Mas a essência dos Sangue foi corrompida, e eles passaram a ser brutalizados desde a infância e a servir de escravos dos caprichos de Rainhas gananciosas e cruéis. 

Séculos se seguiram à profecia. A Feiticeira passou a ser mais uma lenda entre tantas outras que povoavam a história da terra... Até que uma criança de cabelos dourados e travessos olhos azuis-safira perturbou a raiva e o clamor de Daemon SaDiabo, um Príncipe dos Senhores da Guerra. Raiva por terem feito o que fizeram a seu amado irmão, clamor por uma Rainha que respeitasse e acreditasse.

Em outra parte do mundo, no Inferno, para ser mais exata, um outro ser, mais antigo e mais poderoso que Daemon também aguardava, impelido por uma promessa feita séculos antes de esperar a filha de sua alma. O inferno não é um lugar para os vivos, mas uma garotinha brilhou no mundo escuro e Saetan SaDiabo viu diante de si a Feiticeira a quem esperava.

Jaenelle Angelline, doze anos, conhecida em muitos lugares (lugares demais não necessariamente localizados no mesmo plano) está no centro de tudo. A "Feiticeira", aquela que restaurará os Sangue ao que era, ao que nunca deveriam ter deixado de ser.

A narrativa começa complicada. Não complicada de difícil, mas complicada de confusa. Os nomes, títulos e a dinâmica do universo de Anne Bishop embaralham a mente e a linha da narrativa é difusa. Mas então todas as cenas aparentemente soltas se conectam a uma progressão e tudo passa a fazer sentido. E é genial, incrivelmente bem construído e sedutoramente viciante.

15 de jun de 2017

O Livro de Sangue e Sombra - Robin Wasserman


Nora Kane é uma estudante de 15 anos que, graças a seu excelente conhecimento em latim (idioma que aprendeu com o pai e que passou a ser um refúgio quando as atribulações começaram em sua casa), conseguiu uma vaga no grupo de pesquisa da universidade local sobre um alquimista do século XV.

Relegada à tarefa (um tanto secundária) de traduzir as cartas enviadas pela filha do alquimista ao seu irmão mais velho, Nora acaba encontrando uma pista sobre a Lumen Dei um prodígio da engenharia da época que, segundo dizia a lenda, dava ao homem o conhecimento divino direto de sua fonte.

A noite da comemoração pela descoberta que asseguraria o futuro acadêmico de todos os envolvidos não terminou exatamente como o previsto: Chris, seu melhor amigo, morto a facadas em sua própria sala de estar; Adriane, sua amiga e namorada de Chris, catatônica ao lado do corpo com cortes em ambos os lados da boca; e Max, seu namorado. não apenas desaparecido como principal suspeito do crime.

Nora não acredita que a culpa tenha sido de Max. Como poderia? Mas como ele pode deixá-la sozinha para enfrentar o que aquele assassinato horrível causou?

De alguma maneira ela sabe: a chave para encontrar o assassino de seu melhor amigo e Max e inocentar seu namorado das acusações contra ele está em Praga, a cidade onde a lenda da Lumen Dei sobrevive em meio a criptas, igrejas, cemitérios e séculos de histórias.

Robin Wasserman é uma autora a ser vigiada de perto: trama inteligente, excelente estilo narrativo, boa construção de personagem e enredo bem formulado. A história te prende até a última linha e, ao final, você consegue sentir exatamente como Nora: não há como sair ileso. A partir dali a questão é como sobreviver depois do ocorrido.

Fazia muito que não encontrava uma história tão boa assim. A leitura foi excelente e definitivamente a recomendo.

8 de jun de 2017

Por Que eu Leio?


A resposta a essa pergunta mudou ao longo dos anos.

A primeira resposta seria "porque era o que dava para fazer sozinha". Pois é. Filha única, vivendo em uma rua em que os filhos dos vizinhos tinham quinze quando você tinha nove e sofrendo (um certo grau de) bullying na escola. Brincar de boneca no tapete da sala era divertido, mas chegava um momento em que o tédio dominava e seus pais queriam ver TV sem pisar em coisas de Barbie por toda a sala. Ver minha mãe lendo me incentivava a me perder por horas e horas em Um Tesouro de Contos de Fadas, livro ainda hoje muito querido e jamais esquecido.

Alguns anos mais tarde, a resposta se desdobraria para "leio porque é seguro e divertido". Por essa época, confesso, os livros disputaram (e quase perderam) espaço para outras formas de entretenimento. Foram momentos difíceis, em que muitas vezes eu me perguntava se havia algo de errado comigo, ou por que as pessoas ao meu redor (leia-se, principalmente, coleguinhas de escola) não gostavam de mim, mas também foram meus momentos mais maravilhosos: foi a época em que fui à Nárnia e à Terra Média pela primeira vez. Recebi a carta de Hogwarts pouco tempo depois.

A parti desse ponto, passei a ler por uma mistura de escape, prazer e conforto (não necessariamente nessa ordem). Lugares distantes, duelos ousados, feitiços e príncipes disfarçados me disseram, continuamente, e de diferentes maneiras, que tudo bem ser diferente e que eu não estava sozinha. Ia ser difícil, as pessoas iriam tentar me machucar, mas eu ia conseguir passar por aquela fase. Sempre haveria um mago cinzento gritando ao monstro que ele não passaria. Ou uma criatura prateada (que hoje deve se parecer com um cachorro) mantendo as trevas longe. 

Os livros me davam força e conforto, e ainda dão para falar a verdade.

Mais ou menos no Ensino Médio, graças ao meu professor de literatura, minha cabeça assimilou que os livros gravam, em maior ou menos grau, a época em que em foram escritos, e que obras de cem, cento e cinquenta anos podem vencer a brevidade de uma vida. Sempre fico embasbacada com isso. Conseguem imaginar algo de mil e duzentos anos ainda vivo e presente? Ou de dois mil anos? Então, alguns de nossos conhecimentos podem datar de ainda mais longe e, no entanto, os usamos cotidianamente. Ideias utilizadas por algum autor do século passado são re-inventadas e usadas no estouro de vendas atual. É o mesmo, mas é diferente. É todo um universo ressurgindo de suas cinzas para continuar vivo.

Hoje, eu posso dizer que leio porque os livros me confortam, me dão força e me mostram que existe muito mais lá fora do que sonha minha parca filosofia. Graças aos livros, vivo, viajo, aprendo, construo, destruo e refaço tudo de novo.

Leio para conhecer a mim mesma e ao outro. 
Leio para me conectar ao passado, ao presente e ao futuro. 
Leio para suportar a solidão e manter a sanidade. 
Leio para esquecer e curar meus machucados e para reforçar minhas defesas contra pancadas alheias. 
Leio para me incentivar a não desistir. 
Leio para continuar acreditando.

E vocês, por que leem?

(Essa postagem foi baseada em uma pergunta da Editora Harper Collins em comemoração aos duzentos anos da existência da editora.)

5 de jun de 2017

Belas Maldições - Terry Pratchett e Neil Gaiman


Céus e Infernos decidiram, e o mundo está com seus dias contados. Anos, para ser mais exato. Dali a exatos onze anos, O Grande Plano Divino será concretizado. Não há como escapar do Grande Final. A não ser que uma freira satanista entregar o bebê Anticristo para o casal errado.

Junte a isso um anjo e um demônio que veem nessa guerra a perda iminente de suas tão confortáveis (embora não exatamente pacatas) vidas terrenas. Ao perceberem o rumo inesperado do plano que fora planejado séculos e séculos atrás, os dois não sabem direito como agir: seguir o plano original e lutar na Guerra Celestial mais uma vez ou tentar um plano B, mesmo sabendo que eles podem (quase com certeza) enfrentar o resto da Eternidade sofrendo as consequências de sua provável falha.

Querendo evitar o Armagedon e encontrar o Anticristo perdido (que agora é um garotinho de onze anos que vive numa cidadezinha tranquila do interior) eles também encontram uma jovem ocultista dona do único livro da humanidade que prevê, com uma assombrosa exatidão, os acontecimentos do fim do mundo, a existência de caçadores de bruxas e, (por que não?) os cavaleiros do Apocalipse (em suas versões século XX).

Aziraphale (o anjo) e Crowley (o demônio) precisam ser rápidos, o tempo não é a única coisa que está acabando.

De modo geral, a história possui três momentos: o início, com Aziraphale e Crowley conversando nos primórdios da criação, o "onze anos antes", e o Armagedon e consequências. Para ser bem sincera, a parte que mais gostei, e a que fez a leitura ser a mais divertida de todo o livro, foi o final da terceira parte (as consequências). 

No mais, a coisa toda é tão absurda e aleatória quanto a mente fértil de uma criança de onze anos de idade cuja ideia de passatempo é "aprontar" na vizinhança de uma cidade pequena e "enfrentar" o "valentão" da escola.

Achei interessante a maneira como os quatro cavaleiros do Apocalipse foram trabalhados, a adaptação deles ao século XXI foi bem feita (especialmente o Morte, sei lá, achei digno *risos*).

Pessoalmente, este livro não faz jus à toda fama de bom escritor que Neil Gaiman tem (tudo bem que não posso falar muita coisa sobre ele, mas sempre se espera mais de alguém que é tão elogiado pela sua boa escrita).