22 de abr de 2017

Bartleby, O Escrivão - Herman Melville


Herman Melville (1819 - 1891) é considerado um dos grandes autores americanos do século XIX. Morto no esquecimento, Moby Dick e seu autor alcançaram a merecida fama no século XX, fama esta que ainda mantém o livro entre as grandes obras literárias já publicadas.

Mas não estou aqui para falar da grande Baleia Branca (ao menos não ainda). Bartleby, o escrivão, foi publicado em 1856 em um livro de contos chamado The Piazza Tales. O escritor argentino Jorge Luis Borges, que fez o prefácio deste livro, comenta que, neste conto, Melville define um gênero que Franz Kafka aprofundaria a partir de 1919, com suas fantasias que dissecam o comportamento e o sentimento humano.

O narrador deste conto é um advogado aposentado, que nos apresenta um episódio ocorrido com ele na época em que possuía um escritório na Wall Street. Chefe de dois escrivães e um aprendiz, e vendo-se cada vez mais sobrecarregado com suas atribuições, ele decide colocar um anúncio procurando por mais um escrevente.

Quem responde é Bartleby, um rapaz "palidamente delicado, lamentavelmente respeitável e irremediavelmente desamparado". Trabalhador voraz e de personalidade discreta, ele "escrevia em silêncio, apaticamente, mecanicamente", sendo, constantemente, o primeiro a chegar ao escritório e o ultimo a sair dele.

Até que em uma tarde, quando uma série de cópias precisam ser revistas com urgência, o advogado pede que Bartleby se junte aos outros escrivães para a revisão e , após uma longa espera, tem como resposta "prefiro não fazê-lo". Tal frase não foi dita de maneira rude, nem continha nenhum traço de agitação, e sim com uma calma tal que o advogado não consegue reagir.

E assim acontece sucessivamente. A cada nova tarefa pedida a ele, a mesma resposta, "prefiro não fazê-lo", dita de maneira tranquila, porém taxativa, e assim, aos poucos, ele deixa de fazer as coisas, e mesmo as tarefas mais básicas de sua função são abandonadas.

Bartleby desperta sentimentos opostos: ao mesmo tempo em que sua sua previsibilidade, sobriedade e afabilidade de comportamento inspiram "confiança e certo instinto protetor" e fazem dele uma "valiosa aquisição" ao escritório, as mesmas características, somadas à apatia ferrenha diante de tudo "gere súbitos acessos de ira contra ele". 

É um tanto agoniante. Como se justifica agir contra alguém que não fez nada contra você? Que escolhe (usando o verbo favorito de Bartleby, que prefere" não fazer nada? Demite? Sim, é uma boa, só que ele "prefere continuar onde está" e não vai sair porque "prefere ali a outro lugar" ou "prefiro não me mover".

Ao perceber que alguns dos maneirismos de Bartleby estão se infiltrando no restante do escritório, o advogado recorre a uma solução mais drástica. Se ele não sai, saí o escritório. E advinha quem o novo dono encontra lá? Sim, ele mesmo, Bartleby, o escrivão.

A história é bem curtinha. Coisa de setenta páginas, mas não dá pra deixar de se sentir dividido tal como o advogado em relação a Bartleby. 

A José Olympio está, mais uma vez, de parabéns pelo excelente trabalho feito com esta edição. 

18 de abr de 2017

As Mil e Uma Noites #Livro04


O quarto e ultimo domo de As Mil e Uma noites reuniu textos de oito fontes diferentes para completar a quantidade de noites do título, oferecendo um exemplo da pluralidade de fontes e da diversidade de vozes e tons que a voz de Sahrazad pode assumir.

Os eixos das histórias oferecidas continuam mais ou menos os mesmos dos oferecidos nos outros domos: ascensão social, manutenção do poder e domesticação do sexo feminino (apenas lembrando que grande parte das narrações são ambientadas nos primeiros séculos da história humana conhecida e em uma região dominada pelo forte patriarcado). O que chama atenção nestas histórias é a capacidade humana de se alternar entre a piedade extrema e a mais implacável perversidade.

Entre as histórias, destaco a de Alauddin e a Lâmpada Mágica, que ocupa 214 noites ao todo e que nos mostra uma versão bem diferente da que estamos acostumados a associar a esta história (Disney e sua capacidade de adaptação hahahaha).

Também destaco a série Conselho a Reis, que ocupam as noites entre 740 e 775. São 35 noites (quase o dobre em numero de páginas acho) em que as histórias vão para o segundo plano e se destacam conselhos para a boa governanças. Aqui se incluem desde máximas e sentenças propriamente ditas até pequenas fábulas que objetivam ensinar ao rei como reinar com justiça. Destaco essa parte por jamais ter lido algo tão chato em toda a minha vida. Quinze minutos de leitura me faziam precisar de duas horas ou mais de descanso e ainda assim não conseguia voltar à leitura. Acabou que acabei pulando mais de vinte páginas dessa parte e tive a ressaca literária mais perversa de que consigo me lembrar.

As histórias melhoraram depois, mas o dano causado por Conselho a Reis foi grande o bastante para me manter longe deste livro por quase dois meses. Terminei as histórias dando graças ao céus por não correr mais o risco de ter que passar por mais noites como aquelas.

Ler As  Mil e Uma Noites foi praticamente um objetivo de vida cumprido. hahahahahaah

10 de abr de 2017

Temporada Dos Ossos - Samantha Shanon


No último evento Fanáticos Rocco acabei ficando encarregada de apresentar este livro aos participantes, e não deu outra: fiquei doida de curiosidade para lê-lo. Vejamos e convenhamos, dizer que uma autora é a "próxima J. K. Rowling" atiça qualquer fã da diva maravilhosa.

O ano é 2059 de um mundo em que a clarividência não apenas existe como também é tratada como uma doença e exterminada como praga desde o século XIX. Paige Mahoney, a protagonista, é uma vidente (termo genérico para clarividentes) peculiar: seu dom é semelhante a um radar de mentes, sintonizando e reconhecendo diferentes tipos de mecanismos extra sensoriais. 

O mundo dela não é um lugar amistoso: os clarividentes são marginalizados e caçados pela Scion, a instituição do governo responsável pela caça e exterminação dos "desnaturais". Para eles, é viver mendigando e comercializando seus dons a preços esdrúxulos ou unir-se a um dos Sindicatos, grupos de videntes organizados liderados por um mime-lord (ou mine-rainha). Se a ultima frase deu a entender que a opção era ser um miserável independente ou um integrante de uma gangue, saiba que você e está totalmente certo. Paige está no segundo grupo. Ela é a Andarilha Onírica do grupo do Agregador Branco, uma das sete videntes mais poderosas do grupo. 

Certo dia, ao dirigir-se para a casa de seu pai, um acidente do metro a coloca na mira dos policiais da SCION, e mesmo seu treinamento em fuga e sobrevivência foi capaz de livrá-la da prisão. 

É então que ela é levada para a antiga cidade abandonada (e banida) de Oxford. Sheol I é uma comunidade prisional construída pelos Rephaites, seres poderosos que possuem uma ligação mais estreita com o Éter que os videntes achariam possível, e mantida pela Scion para manter os clarividentes longe dos naturais. É daí que vem o nome do livro: a Temporada dos Ossos é um acontecimento que ocorre a cada dez anos na cidadela dos naturais e que tem por objetivos capturar videntes e levá-los ao Sheol.

De fugitiva a prisioneira, Paige logo se dá conta do lugar em que está. Assim como logo se decide a fugir e voltar para o Sindicato, para o grupo que até então era como sua família. Ela quer fugir. Só precisa descobrir como.

O ponto alto da divulgação deste livro é um comentário comparando-a com J.K. Rowling. Achei meio presunçoso no inicio mas, a medida em que lia a história, tive que dar o braço a torcer. O estilo de narração e a progressão da história, de fato são bem parecidos e Samantha Shannon sabe muito bem como manter o desencadeamento da história sobre controle. As duas são escritoras bem precisas nesse sentido e sabem bem o que estão fazendo.

Este livro faz parte da Bone Season, mas, para falar a verdade, não entendi direito o motivo de haver continuação. Os acontecimentos iniciados tiveram conclusão e não consegui vislumbrar um objetivo que justificasse a existência de outros livros. Mesmo assim, se eles existirem, espero mesmo poder lê-los.

3 de abr de 2017

O Clube de Leitura de Jane Austen - Karen Joy Fowler


Apesar de sempre ouvir falar muito bem de suas obras, e de definitivamente ser uma das autoras mais respeitadas e cultuadas da história da literatura, nunca cheguei a concluir nenhum livro de Jane Austen (minhas três tentativas foram frustradas nos primeiros parágrafos e nunca mais me aventurei desde então).

De certa forma, foi essa incapacidade que me fez pedir O Clube de Leitura de Jane Austen. Talvez, pensei cá comigo, ver as histórias delas pela mentes dos que amam incondicionalmente sua obra, eu consiga uma melhor experiencia com a autora e talvez me fique mais uma vez motivada a lê-la.

Jocelyn, Bernadette, Sylvia, Allgra, Prudie e Grigg possuem suas vidas próprias no Central Valley, Califórnia. Mas, uma vez por mês, eles se reúnem na casa de alguém para discutir uma obra da escritora britânica Jane Austen.

Ao longo dos seis meses em que os encontros ocorrem, eles partilham mais do que a literatura, dividindo, mesmo com seus silêncios, suas perdas, conflitos, romances e amizades.

Narrado por uma sétima pessoa do clube, a narradora passeia pelo presente nos encontros do clube e em seus momentos anteriores, assim como nos revela um pouco do passado dos que receberão os outros integrantes do grupo. Em determinados momentos, foi confuso encontrar o que uma coisa tinha a ver com a outra, mas, ao mesmo tempo, fez sentido: o livro preferido de cada um tem a ver com o passado que o levou até ali.

Um dos personagens me chamou atenção. Na verdade, o que me chamou atenção foi como as mulheres tratavam Grigg, o único homem do grupo, 1)por ele ser homem, 2)por ele ser leitor assíduo de ficção científica, e 3) por ele nunca ter lido Jane Austen antes de ser convidado por Jocelyn (a organizadora do clube) para participar das reuniões. Em vários momentos me peguei enviando minha solidariedade ao pobre coitado entregue aos chacais como estava.

O livro trás ainda as sinopses de cada livro discutido e uma série de comentários sobre Jane Austen e suas obras feitos por várias pessoas ao longo do tempo.

De uma maneira geral, a leitura deste livro é fácil e cadenciada. Não há termos complicados e nem cenas fortes. Os amantes de Jane Austen certamente encontrariam várias referências aos livros abordados. A mim, que não li nenhum (ainda), todas elas passaram batidas. (Talvez por este motivo, tenha achado mais do que justo entregar meu exemplar à uma apaixonada por Austen. Sei lá, acho que vou me sentir mais confortável se souber que este clube de leitura está entre os seus).