30 de nov de 2017

Eleanor Oliphant Está Muito Bem - Gail Honeyman



Nos bons tempos, Eleanor Oliphant podia se considerar uma mulher que sobrevivia em uma vida simples e solitária. Prestes a completar trinta anos, sua vida se resumia a ao escritório onde trabalha oito horas por dia no setor financeiro, sanduíches e palavras cruzadas na hora do almoço, comida  para um preparada para um cotidianamente e pizza congelada com vodca nos finais de semana e uma ligação semanal da mãe.

Ela é metódica, solitária e, talvez por causa dessa combinação), com pouca (pouca mesmo) habilidade social. Interagir com outras pessoas é uma tarefa difícil e muitas vezes sem sentido, então, quase sempre, ela simplesmente não se da o trabalho de realizar a tentativa.

Duas coisas acontecem na vida de Eleanor que perturbam sua vida hermética: a primeira é que ela se apaixona pelo vocalista de uma banda durante um concerto (não se engane pensando que ela comprou os ingressos, ela os ganhou em um sorteio de caridade), a segunda é que ela e o novo funcionário da empresa (Raymond) salvam um velhinho que tinha desmaiado no meio da rua.

É assim, quase sem quer querendo, que a vida de Eleanor começa a andar em uma direção até então nova para ela. Em passos quase pequenos e friamente calculados ela passa a se preocupar mais com sua própria aparência e vai a um salão de depilação (experiencia traumatizante) e faz as unhas (experiencia sem sentido), corta o cabelo e aprende a se maquiar de modo a cobrir a cicatriz que tem no rosto. Seu guarda roupa ganha alguns itens novos e ela finalmente compra para si um computador e um celular.

O mais impressionante de tudo, Elanor faz amigos. Ela nunca entendeu realmente porquê as pessoas fazem amigos. Ela nunca precisou deles. Na verdade, ela nunca ficou em um lar adotivo por tempo o bastante para conseguir faze-los. Mas, ainda assim, (e apenas de todas as suas estranhezas e peculiaridades) não apenas Raymond entra em sua vida, mas também Sammy (o velhinho que os dois salvaram) e a família dele e a mãe de Raymond.

Nada disso impediu que os dias ruins viessem a Eleanor. A planta de estimação que a acompanha desde o incêndio morreu e ela caiu na realidade sobre sua paixonite pelo cantor.

Mas estamos em dias melhores agora. As mazelas dos dias ruins trouxeram a tona o que de pior havia na vida de Eleanor, mas a presença (para ela) inesperada e insistente de Raymond a incentivou a buscar ajuda. Ela voltou ao trabalho e se deu conta (pela primeira vez em quase dez anos de trabalho) que era querida naquele ambiente até então impessoal. 

Ainda é difícil para ela lidar com algumas coisas, mas podemos com certeza dizer que Eleanor Oliphant está muito bem, obrigada.

Não consigo encontrar palavras para descrever o quanto esse livro me surpreendeu. Nunca me vi tanto em uma personagem como me vi em Eleanor (ao ponto de me deixar um tento preocupada em certos momento) e nunca me senti tão esperançosa em relação a vida quando depois de terminar esse livro.

A narrativa Gail Honeyman é suave e o desenrolar dos fatos, como eu disse antes, é quase sem querer. E, quase sem querer também, você se pega torcendo por Eleanor, acompanhando cada pequena vitória, rindo de algumas descobertas, chorando quando as coisas ficam mais difíceis e até mesmo compartilhando as esperanças de conseguir sair do modo de sobrevivência para, finalmente, viver.

27 de nov de 2017

Underground Airlines - Ben H. Winters


Às vezes dou muita sorte no que diz respeito a julgar livros pela capa (principalmente quando a sinopse não passa de vários comentários sobre a obra). Em outras vezes, não me dou tão bem assim. Undergrond Airlines foi um dos títulos do segundo caso.

Em  um grande momento "e se" de sua vida como escritor, Ben H. Winters imaginou um mundo em que a Guerra de Secessão americana (1861-1865) nunca ocorreu. Os Estados Unidos da América seguiram a sua história do jeito que estavam: alguns estados extinguiram o trabalho escravo em seus territórios enquanto outros o perpetuaram.

Hoje, 2017, ainda há quatro estados escravocratas, ou "Os Quatro Injustos": Louisiana, Mississippi, Alabana e Carolina. Estados dominados por plantations e por cidades em que pessoas de cor devem, necessariamente, andar logo atras de uma pessoa branca que se responsabilize por ela, vigiado por policiais brancos (que podem muito bem ignorá-los ou espancá-los) e por atiradores negros que podem simplesmente atirar em caso de conduta inadequada.

A escravidão nesses estados é legalizada e regularizada e as "Pessoas Obrigadas ao Trabalho" passam suas vidas inteiras sendo compradas, vendidas e marcadas como propriedade alheia. A não ser que aconteça e você consiga fugir e/ou ser resgatado por algum grupo abolicionista e ainda tenha a sorte de chegar são e salvo ao Canadá (porquê se você for pego nos Estados Unidos você será reconduzido à plantation de onde você fugiu).

Já que tocamos no assunto, vamos ao protagonista dessa história: Victor é um ex-escravo que foi recrutado pelo governo federal para caçar escravos foragidos e entregá-los aos autoridades que irão reconduzi-lo ao proprietário original. Sua missão atual é descobrir o paradeiro de um escravo conhecido como Jackdown, que, aparentemente, está sendo mantido em Indianápolis, Indiana, por uma célula local de um movimento abolicionista clandestino chamado Underground Airlines.

O problema é que a caçada a Jackdaw acaba se tornando uma ponta de iceberg em uma trama muito pior (e muito mais desumana).

A grande questão desse livro é que a narrativa não me envolveu. Nem o protagonista para falar a verdade. Acho que o objetivo dessa história era mostrar que vivemos em  um mundo livre, mas não tão livre assim. Escravos existem, o preconceito racial também, mas todos fingem que não e assim seguimos a vida. 

Bem, talvez seja esse o ponto mesmo, e talvez Underground Airlines tenha tido um impacto muito maior lá nos Estados Unidos, mas, infelizmente, no rank de melhores leituras do ano, esse livro não está bem colocado (a não ser que se tenha por referencia os números maiores da lista).

24 de nov de 2017

O Coletor de Espíritos - Raphael Draccon


Até agora, tive experiencias ambivalentes com Raphael Draccon: ao mesmo tempo em que Fios de Prata foi um dos melhores livros que já li me anos anteriores, Dragões de Éter (obra que lhe rendeu ao menos boa parte de sua fama atual) foi uma total frustração. Ao ver O Coletor de Espíritos na news da Rocco, meu lado leitor que gosta de sofrer resolveu arriscar.

Sorte a minha que esse livro pendeu para o lado de Fios de Prata.

Existe, em algum lugar perdido do Brasil, um vilarejo esquecido pelo tempo chamado Véu-Vale. Ali, a iluminação é fornecida por tochas e a água vem das chuvas. Seria mais um vilarejo perdido no meio do nada se não fosse o terceiro dia seguido das noites de chuva. 

Nessas noites, os moradores se trancam em suas casas, as crianças se agarram aos pais e as mulheres desfiam seus terços em rezas fervorosas. Não pela chuva, mas pelos gritos que eles ouvem por causa dela.

Ninguém pensa em sair de Véu-Vale. Na verdade, ninguém nunca quis sair de lá. Para aquela gente, existe Véu-Vale, e a pessoa fazer o que os pais faziam era apenas o curso natural das coisas. Exceto para Gualter Hadam. 

Em um gesto que alguns chamaram de loucura, que outros chamaram de rebeldia e que ninguém conseguiu realmente entender, ele pegou a bicicleta que o pai fizeram para ele anos antes de sua morte e saiu pedalando da cidade.

Dez anos se passaram desde que ele foi para a cidade. Gualter se tornou psicólogo de renome com a clientela restrita a milionários e celebridades (incluindo ai o maior jogador de todos os tempos, um brasileiro conhecido mundialmente como Allejo). E mesmo morando em uma cobertura de um prédio de luxo na cidade grande, ele ainda escuta os gritos nas terceiras noites seguidas de chuva.

Ele volta a Véu-Vale ao receber a noticia de que a mãe sofrera um infarto, e é quando algo, nele e na cidade se agita. Os pesadelos de Gualter ficam piores. O que anda durante as terceiras noites de chuva se torna mais assustador.

É quando Gualter falha com seu primeiro paciente é que ele decide voltar a sua cidade natal e enfrentar não apenas seu passado, mas também seus medos. 

E é quando o véu que cobre Véu-Vale se rompe. O Coletor de Espíritos finalmente apareceu.

Juro mesmo que se começasse a chover eu iria ter um sério problema para dormir. O Coletor de Espíritos (o livro dessa vez, não o personagem) é uma leitura tensa, você lê sobre o terror que há na cidade sem nunca saber o que está acontecendo, ou o que (ou quem) está gritando. 

Ao mesmo tempo, exite nesse livro um caminho de expiação e de superação que te deixa torcendo para que tudo der certo, por que sabe que depois desse caminho há luz e descanso tanto para os que ficam quanto para os que já foram.

Fora que as referencias a Fios de Prata foram uma excelente surpresa a essa minha pessoa. <3

21 de nov de 2017

O Chamado do Cuco - Robert Galbraith



Numa noite de neve, uma super-modelo cai de seu apartamento no terceiro andar de um dos endereços mais caros de Londres direto para a calçada tomada pelos paparazzi. 

A polícia logo conclui que foi suicídio, mas John Bristow, irmão da modelo, tem indícios que podem sugerir que Lula Landry tenha sido assassinada. Como a polícia não lha dá mais crédito, ele procura por um detetive particular e encontra Cormoran Strike, um veterano de guerra ferido não apenas fisicamente e cuja a vida é tão confusa quanto o caso que cai em seu colo.

Estou de olho neste livro já faz um tempo, mas as opiniões dividias em meu grupo de amigos leitores me fizeram ficar com receio de comprar. Agora chego a conclusão de que deveria ter lido esse livro a mais tempo, até por que, mesmo usando um pseudônimo, é da diva J. K. Rowling de que estamos falando.

Não sou muito chagada a romances policiais porquê, ou eles desembestam a fazer parágrafos longos demais com explicações complicadas (o que me deixa totalmente perdida), ou o clima geral é tão tenso (e/ou assustador) que preciso parar para fazer qualquer coisa que me tire o foco daquele ponto (o que leva a procrastinar a leitura e buscar outras atividades paralelas ainda mais do que já faço normalmente), mas todas essas questões foram resolvidas na trama policial de Rowling.

O cuidado delas com os personagens também me venceu fácil. Adorei acompanhar Cormoram por Londres, gostei da assistente Robin Ellacott e da relação que os dois desenvolveram ao longo do livro (não é romântico,  mas aposto que os dois sentem uma queda secreta um pelo outro hahahaha).

Só sei que quero O Bicho da Seda. Para ontem de preferencia.

16 de nov de 2017

Hotelles, Quarto 1 - Emma Mars


Em algum dos primeiros dias de junho do ano de dois mil e dez, Annabelle Barlet está algemada a uma cama do quarto Josephine do Hôtel des Charmes, em Paris, esperando por um homem desconhecido que está prestes a sair do banheiro da suite. Mas não se engane, caro leitor, essa não é uma cena de terror. Muito pelo contrário.

Mas primeiro, voltemos um ano. Dois mil e nove, também inicio de junho, quando ela ainda era Anabelle Lorand, a poucos meses de se formar na faculdade de jornalismo. Com a mãe com câncer em estágio avançado, Elle está com um cliente no Josephine. Elle é uma hotelles, uma acompanhante de luxo, que aceitou esticar seus serviços com aquele cliente depois de conhecer, em um evento em que conheceu, quase por uma feliz coincidência, David Barlet, magnata das telecomunicações da França e seu futuro marido.

Ainda há outro mistério em sua vida: semanas antes desse cliente em específico, Elle (como todos, inclusive clientes, a chamam) encontrou em sua bolsa um pequeno caderno vazio de capa prateada, e foi apenas uma questão de dias para os bilhetes começarem. Feitos em um papel que claramente pertence ao caderno vazio, os bilhetes que o desconhecido mandam parecem revelar recantos de sua alma e de seus desejos mais profundos (desejos que, por certo, ninguém, além dela mesma, poderia ser capaz de conhecer).

Em meio aos bilhetes misteriosos e a felicidade e a segurança aparente que David Barlet lhe oferece quase de mão beijada, o elemento (mais) desestabilizador parece se concentrar apenas em uma pessoa: Louis Barlet, irmão mais velho de David, que se mostra tão afável em ensinar a Elle segredos que vão desde o bairro de alta classe que passará a ser sua residencia após seu casamento até a mais traiçoeira face da família Barlet.

Hotelles, é mais um daqueles livros que me atraíram pela capa mas que nunca tive coragem de comprar. Vencido o primeiro obstáculo (ele estava disponível no catálogo da Rocco), a leitura foi devagar (pelos meus padrões), mas muito bem aproveitada.

Na ambientação (até então, inédita para mim) da Cidade Luz, onde o erotismo parece estar presente mesmo nos traços mais modernos da cidade, o aprendizado de Elle nos assuntos Barlet e, (por que não dizer), nos de alcova, me remete um pouco à ao processo de aprendizado que Mia Saundres passou em sua jornada (respeitadas as grandes diferenças existentes entre essas duas acompanhantes de luxo).

A bem da verdade, a comparação é bem fraca (mas meu repertório nesse assunto não é dos mais vastos). O caminho percorrido por Elle foi muito mais manipulado do que de Mia, e, no processo, vários planos e sonhos de vida foram se perdendo na teia em que a prenderam.

O Quarto 1 de Hotelles foi diferente de tudo o que já li (ou que me lembro de ler lido) até o momento, e a chave do Quarto 2 já está em minhas mãos.

13 de nov de 2017

Carmim - Catarina Muniz


Poucos livros foram tão recomendados por mim como A Dama de Papel (alguns dos meus amigos não aguentam mais me ouvir falar do livro... mas dois ou três se renderam à leitura e, obviamente, adoraram). 

Dito isso, é difícil não comentar o quão empolgada fiquei ao saber que Carmim sairia em livro físico depois de meses sendo exclusivamente digital.

Vittorio Datelli e a esposa vieram da Itália procurando uma vida melhor para a família. Juntos, eles construíram uma confeitaria italiana que hoje está espalhada por mais de vinte estados americanos e continua tão produtiva como no inicio do projeto.

No dia de seu falecimento, seu neto, Louis Datelli, encontra, no bolso do terno que deveria levar para vestir o avô em seu funeral, uma carta datada de 1982, em que uma tal de Guadalupe escreve que ele nunca mais verá nem a ela, nem à filha que eles tiveram jutos.

Chocado com a descoberta, Louis decide procurar a filha que o avô teve fora do casamento, e as redes sociais acabam por leva-lo a Carmem, uma dentista espanhola que se mudou de Barcelona para Atlanta depois de perder sua mãe por causa do rompimento de  um aneurisma cerebral. 

Para se aproximar de Carmem, Louis marca uma consulta com ela utilizando-se do sobrenome de seu pai (Smith). A primeira consulta o rendeu a descoberta de uma carie profunda. A segunda, três dias depois, o fez descobrir que a Doutora Carmem era uma mulher de longos cabelos cacheados e ruivos e olhos de verde intenso. 

Ele a convida para jantar após a consulta, e o convite lhe rende o telefone dela,  o encontro seguinte culmina em uma transa quase desesperada na cadeira do consultório dela. Daí para frente, todos os finais de semana Louis passa com Carmem em Atlanta, os dois envolvidos em um amor cada vez mais profundo.

A minha empolgação com a leitura durou até, mais ou menos, a página dez, que foi quando percebi que teria sérios problemas com o ritmo do texto por causa do excesso de exclamações. Afirmações ganharam enfase desnecessária ou animação demais e, infelizmente, acabaram transformando dois personagens muito bons em dois histéricos sem causa.

Isso me entristeceu imensamente, por que a história é muito boa (como eu já sabia que seria, a final de contas, á da Catarina Muniz que estamos falando), mas ficou um tanto apagada no meio de tanta exclamação sem sentido.

10 de nov de 2017

O Selvagem - Kristen Ashley


Tessa O'Hara é uma confeiteira de sucesso em Denver. Seus bolos e biscoitos são requisitadíssimos e não existe cliente que não os adorem. Uma tarde, um cara do tipo "homão da po***" (desculpem, mas não há expressão melhor para descrevê-lo) entrou em sua loja e o chamou para um café e ela aceitou. Simples assim, em coisa coisa de menos de trinta segundos.

Mas quatro meses depois Tess descobriu, da pior maneira possível, que Jake Knox, o homem dos seus sonhos era um policial disfarçado incumbido de vigiá-la de perto para descobrir se ela ainda tinha algum tipo de relacionamento (amorosos ou não) com seu ex-marido, Damien Heller, o maior distribuidor de narcóticos da cidade.

Três meses depois o agente Brock Lucas vai a casa dela exigindo a conversa que ela lhe prometera na ultima noite em que fizeram amor (a mesma em que invadiram a casa dela no meio da madrugada para interrogatório na delegacia).

O jogo está contra Brock dessa vez. Tessa já passou por coisas ruins demais por confiar em alguém que não merecia e pagou caro por isso. mas Brock já se deixou envolver demais pela doce Tess para deixar o caso deles morrer em amargura. Ele está determinado a mostrar a ela que eles podem ser tudo o que eles que a vida pode ser doce e repleta de felicidade.

Esse livro teve, contra ele mesmo, ter sido precedido por um das histórias que mais marcaram meu ano (e é bem difícil mesmo competir com Hawk Delgado) e cheguei a ficar com medo de me decepcionar com a autora. Não me decepcionei, ela até atendeu às minhas expectativas, mas Brock não me encheu muuuito os olhos.

É estranho, mas achei difícil montar os personagens na minha mente. Quer dizer, quando Brock fez sua ponta de participação em O Estranho, me pareceu que ele tinha a mesma faixa etária do Hawk (uns trinta ou trinta e quatro anos). Mas ele tem quarenta e cinco e ela quarenta e quatro. Sobrinhas de dezesseis anos de uma irmã mais nova e dois filhos de quatorze e doze anos. 

De um modo geral, e apesar das coisas estranhas, O Selvagem é uma história bacana e bem escrita. Fiquei meio triste por não poder ter o final que eu gostaria (coisas da idade), mas como posso reclamar de um final feliz?

7 de nov de 2017

As Pupilas do Senhor Reitor - Julio Dinis


Um dos objetivos da minha lista de leitura é não me manter presa a uma época ou país, então, ao ver As Pupilas do Senhor Reitor (e, confesso, na falta de outros títulos que se sobressaíssem mais que este) não me demorei a escolhe-lo.

José das Dornas é um lavrador abastado de uma área rural portuguesa do século XVIII que possui dois filhos: Pedro, que, em resumo, é a quem se destina os negócios do pai, e Daniel, que de tudo lhe é diferente do irmão.

Preocupado com o futuro do mais moço, José das Dornas pede conselho ao reitor da paróquia local, e acaba por decidir fazer Daniel seguir o caminho eclesiástico. Em uma tarde porém, o padre vê o menino no campo com uma menina, os dois a passar a tarde em brincadeiras de criança e Daniel à fazer promessas de amor duradouro à pequena pastora.

O reitor, um tanto injuriado com a descoberta, convence José das Dornas a mandar o menino para estudar medicina no Porto, de onde volta, anos depois, formado em medicina e sem nenhuma lembrança da jovenzinha com quem brincava no campo.

Ao voltar, Daniel tem sua vida cruzada com a de Clara e Margarida, duas jovens moças que ficaram sob tutela de padre Antonio após o falecimento dos pais. Daniel apaixona-se pelos jeitos de Clara, que está noiva de seu irmão mais velho, e, vendo todo o desenrolar da trama enquanto sofre calada, está Margarida, a pastorazinha que, desde pequena, nutre por Daniel um amor que o tempo e o desabrochar difícil da vida adulta não deixou esquecer.

Se a trama lhe parece digna de novela das seis, não a toa que ela foi adaptada por duas emissoras (TV Record em 1970 e SBT em 1994). Escrito em 1867, As Pupilas do Senhor Reitor é uma história bonitinha que fica no limiar entre o espírito romântico e a mentalidade realista que produziu tantas boas obras em Portugal.

A leitura não é difícil, especialmente se você tiver a mão um (abençoado) aplicativo que lhe um bom dicionário (tradicional ou de sinônimos). Na verdade, esses pequenos percalços linguísticos me fez aproveitá-la ainda mais (e, de quebra, me forneceu boas pausas durante a leitura). 

O livro é gostoso, tem desafio certo para quem deseja se aventurar na literatura portuguesa. Já pegueis outros títulos do autor para procurar.

2 de nov de 2017

O Carteiro e o Poeta - Antonio Skármeta


A literatura chilena é uma das mais respeitadas da América Latina. Sendo leiga no assunto, aproveitei o embalo e escolhi um dos livros disponíveis de Antonio Skármeta nos lançamentos de Agosto e escolhi O Carteiro e o Poeta, que, de uma maneira ou de outra, possui as bençãos do Premio Nobel Pablo Neruda.

Mario Jimenez é um rapaz de dezessete anos que constantemente inventa resfriados para não seguir o pai em seu ofício de pescador, preferindo muitas vezes ir à cidade para ver filmes ou folear revistas de celebridades.

Em uma tarde, depois de receber um pito do pai por não ter ocupação, ele vê o anuncio de emprego na agência dos correios para o ofício de carteiro. A perspectiva de passar o dia pedalando o atrai, e ele se candidata ao cargo. O trabalho é, unicamente, entregar a correspondência diária ao único letrado na Ilha Negra: o poeta Pablo Neruda.

A aproximação entre esses dois personagens, começa tímida, mas aos poucos se converte em uma inusitada amizade, em que os dois trocam considerações sobre a poesia, Mario busca conselhos sobre como conquistar o coração da garçonete Beatriz e Neruda pede, em seu papel de diplomata da França, que o carteiro grave os sons de sua terra para aplacar a saudade de Ilha Negra.

A história de O Carteiro e o Poeta é suave como a vida no interior, sem acontecimentos abruptos ou grandes reviravoltas do destino, mas é marcante no sentido de mostrar o quanto uma pessoa pode influenciar a outra somente por ele ser a pessoa que é, e o quanto a amizade e a poesia podem modificar os rumos de uma vida.